Imagine um cara ou uma garota realmente durões em suas atitudes. Agora pegue isso e multiplique por mil e você tem um badass; o cara que faz o que quer, sabe o que quer, não tem problemas para parceiros, bebe litros de álcool que ser humano algum aguentaria, consome carne vermelha, e é um fodão de primeira. Segundo o Urban Dictionary, o conceito de badass, apesar de não muito específico, é instanteamente reconhecido; é como “uma Harley ou um bom par de óculos escuros: simples, direto e funcional”.

10 – John Nada (Eles Vivem)

“Eu vim aqui chutar bundas e mascar chiclete. E meus chicletes acabaram.”, diz Nada segundos antes de começar a atirar em alienígenas disfarçados de humanos em um banco. Se só essa frase não fosse suficiente para inclui-lo na lista, o sujeito resolve sair no braço, em completa desvantagem numérica, contra um exército inteiro de invasores infiltrados e que para ele, poucas horas antes, eram apenas cidadãos da gloriosa terra das oportunidades.

No filme anti-sistema de Carpenter, o “zé ninguém” protagoniza cenas inacreditáveis como uma luta de wrestling na rua que dura dez minutos, trocar tiros com a polícia e invadir a base dos invasores com um bando de rebeldes. Um cara que logo que percebe que a nação onde vive é uma mentira, sai no pau com o resto do país sem dor na consciência. E ainda manda o dedo do meio para todo o mundo no final…

9 – Walt Kowalski (Gran Torino)

O viúvo mais resmungão e rabugento do cinema recente, no papel canto de cisne na carreira de Eastwood como ator, consegue encarar uma gangue inteira de chineses mafiosos que aterrorizam seu bairro. Homem da velha guarda, Walt encara os criminosos com nada mais que seus culhões imortais e sua sinceridade grosseira.

Walt é um ex-trabalhador da Ford por cinco décadas, veterano de guerra, toma conta da sua própria casa sozinho (conserta seu Gran Torino, os canos da cozinha e ainda apara a grama com um aparelho manual – e sua garagem ainda tem milhares de ferramentas que metade da população desconhece), come carne vermelha e toma litros de cerveja que fígados normais não agüentariam. Quantos caras de mais de 70 anos ainda fazem isso?

Um homem à moda antiga, que intimida intrusos em seu quintal e garagem com espingardas ao invés de ligar para a polícia e pisoteia a cara de quem sacaneia seus amigos. Não tem para outros badasses de idade avançada, nem mesmo para o vingador Paul Kersey, interpretado por Charles Bronson na série Desejo de Matar – afinal o mesmo era um arquiteto bundão que só vira durão durante o filme.

8 – Beatrixx Kiddo (Kill Bill 1 & 2)

Mais durona que muito homem por aí, Beatrixx não viu sentido em ficar lavando prato em casa – e mesmo quando tentou, Bill fez questão de lembrar que ela não conseguiria. Responsável, nos dois filmes, por levar meio mundo de gente para a cova, a garota preferida de Bill é a assassina perfeita – sua disciplina com facas e espadas atinge níveis absurdos como no momento em que ela extermina os Crazy 88 comandados pela espadachim sino-nipo-americana O-Ren Ishii. O que Rambo e Matt Hunter (de Invasão USA) exterminariam com armadilhas e bazucas, Kiddo faz com uma katana e suas atléticas habilidades que saltaram dos filmes chambara.

Mas é claro, como diriam os vendedores, não é só isso: ela ainda extermina um por um dos assassinos mais temidos do mundo, o Deadly Viper Squad, soca o seu caminho para fora de uma cova, sobrevive ao treinamento incrivelmente árduo do sifu cantonês Pai Mei e não tem medo de apelar para métodos sádicos quando o que está em questão é a sua sobrevivência – como quando enterra um pé de mesa com pregos enferrujados na cabeça da psicótica Gogo Yubari ou arranca o único olho que sobrava da sua temível rival caolha Elle Driver. Uma personagem exótica não é novidade na carreira de Quentin Tarantino – mas a influência de kung fu e kenjutsu nessa obra em específico só serviu para deixar tudo mais hipergráfico, inacreditavelmente absurdo, e obviamente, badass.

7 – Tommy DeVito (Os Bons Companheiros)

“Funny how? What’s funny about it?” Preso ao eterno papel do baixinho psicótico, Joe Pesci tem sua parcela de culpa nisso principalmente por seu papel em Goodfellas. Especialista em personagens violentos, Scorsese deflagrou como poucos o universo da máfia e fez de Tommy aquelas figuras carismáticas e ao mesmo tempo ameaçadoras.

Inspirado em um gângster da vida real, Tommy intimida, espanca, tortura, mata e esquarteja – e não apenas por profissão; Tommy parece gostar do que faz. Cenas clássicas como a que intimida o protagonista Henry Hill e toda mesa quando se faz de ofendido ou mata um subordinado a troco de nada são dois exemplos que ilustram bem esse badass psicopata dono, provavelmente, do pavio mais curto do cinema – só comparável, talvez, a outro personagem biográfico de Scorsese, o Jake La Motta de Touro Indomável.

6 – Major Reisman (Os Doze Condenados)


Quem é o único cara com cacife o suficiente para comandar doze presos militares sentenciados à pena de morte – entre eles Robert Ryan (um dos pistoleiros do “bando selvagem” de peckinpah em Meu Ódio Será Sua Herança), Donald Sutherland (o Hawkeye do filme MASH e pai de Kiefer, o anti-heróico Jack Bauer da série 24 Horas), John Cassavettes (conceituado diretor e também lembrado como o suspeito marido de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary) e Charles Bronson (estrela de pelo menos dez filmes estilo “testosterona explosiva” mesmo quando já era sexagenário)?

É o Major Reisman, interpretado por Lee Marvin, um dos caras mais fodas que já pisaram na terra, e que praticamente só interpretava bandidos, assassinos, militares, incluindo entre eles Liberty Valance, o antagonista de Henry Fonda e John Wayne em O Homem Que Matou o Facínora. Juntos, essa galeria de valentões são “The Dirty Dozen”, protagonistas da obra mais socialmente ácida do genial Robert Aldrich.

Resiman treina e comanda os doze desajustados soldados em uma missão suicida que acabará com a vida de praticamente todos eles. Argumento insuficiente para impedir o comandante e sua tropa de acabar com uma base nazista. Precursor dos comandantes estilo “missão dada é missão cumprida” que se tornaria novamente popular com o explosivo Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, mas com um atitude rebelde e indiferente à la Bogart, o Reisman de Marvin marcou toda uma geração com sua atuação de um tom só que nos dava a certeza que aquele homem era sólido como uma rocha.

5 – Oh Dae Su (Oldboy)

Já foi mencionado que o Paul Kersey de Bronson não entrou porque o mesmo era um homem comum antes de virar um vingador, por isso perdeu o lugar para Walt Kowalski na categoria “badass sexagenário”. Pois bem, Oh Dae Su também era um bundão, até perder toda a família numa trama elaborada de vingança e ficar trancado por vários anos dentro de um quarto. Lá dentro, começou a treinar corpo e mente de forma incansável, só acumulando a raiva para o dia que encontrasse quem o seqüestrou e desgraçou sua vida.

Os anos de tortura fez de um cara até então ordinário em um cara definitivamente durão – que dá o troco em grande estilo, brigando com outros armado de martelos, arrancando dentes, ameaçando jogar gente do terraço de edifícios e por ai vai. Seu estilo obstinado e impiedoso, à melhor maneira “vingança a qualquer custo”, é responsável por um dos filmes mais ultraviolentos – tanto graficamente quanto psicologicamente – da década passada. Tudo isso encenado naquela narrativa absurda, demente e exagerada dos filmes coreanos atuais; e Oh Dae Su é o maior símbolo de um cinema cheio de caras com quem não se pode brincar, imagine então tentar sacanear.

4 – Varla (Faster, Pussycat! Kill! Kill!)


Na filmografia do velho tarado e maldito Russ Meyer, a personagem de Tura Satana rouba a cena. Não apenas pelos peitões, bundas e coxas imensas, mas também porque a dona é implacável. Não só consegue brigar de igual para igual com homens e ainda matar um, como também manda e desmanda em seu bando formado por garotas duronas e gostosas. Claro que nenhuma delas chama tanta atenção quanto Varla, uma das estrelas-mor do cinema exploitation.

Ela seduz os homens da trama com seus atributos físicos, seqüestra mocinhas, engana velhos, arma golpes, executa desertoras, atropela desafetos… Um vulcão em erupção, que é só sexo e violência o tempo inteiro, em um dos filmes mais divertidos dos anos 60 e que ainda continua inovador e contracultural até hoje. Pra quem acha que Tarantino tirou Death Proof e suas garotas cheias de atitude do nada precisa checar urgente a obra-prima de Russ e testemunhar a atuação de Tura, a deusa do cinema underground.

3 – The Wild Bunch (Meu Ódio Será Sua Herança)


Pro inferno com Stallone e seus Mercenários: perto do bando liderado por William Holden eles não passam de uns maricas. No conto fatalista e brutal de Peckinpah, o bando mais temível do oeste tem que enfrentar a mudança dos tempos de um oeste se modernizando, a idade chegando e a vida ficando cada vez mais dura. Mesmo assim, o bando formado por Holden decide aceitar uma última missão roubando um carregamento de armas para os rebeldes mexicanos.

A gangue selvagem, revoltada com o fim do velho Oeste, bebe o tempo todo, ri de piadas bobas, resolvem os conflitos pessoais na base da bala e não poupam mulheres, crianças ou idosos. Vivendo em um universo dominado pelo gênero masculino (as mulheres, para os bandidos, são meros objetos sexuais feitos de carne) onde a única fuga da realidade cruel é beber até o fígado estourar. A indignação alcança seu ápice no duelo final. Depois de duas horas de uísque, sexo, troca de tiros, lamentações e risadas histéricas, os pistoleiros pegam em armas (mais modernas, como pistolas automáticas e metralhadoras) pela última vez , promovendo uma verdadeira chacina que tomou da produção da obra doze dias e dez mil balas de festim. No geral, mais de uma centena de pessoas morre durante filme. E a gangue de protagonistas e os caçadores de recompensa que os perseguem são os catalisadores de praticamente todo o arranca-rabo que acontece. Ou seja: Meu Ódio Será Sua Herança é, digamos, a quintessência da testosterona.

2 – Cody Jarrett (Fúria Sanguinária)

Cagney é, digamos, o pai de Joe Pesci em matéria de atuação. O baixinho é um verdadeiro cachorro raivoso; e o explosivo Cody é dono de uma fúria que pouca coisa parece ter o poder de conseguir parar. Com uma relação interdependente de idolatria com uma mãe igualmente doentia, o gângster – órfão de pai e sofredor de dores de cabeça insuportáveis – passa o filme tentando fazer algo de que a mãe realmente se orgulhe.

Em uma atuação que marcou época, James Cagney, ao lado de gente como Paul Muni no Scarface de Howard Hawks, criou praticamente um estereótipo de atuação histérica e fanfarrona. O grito ensandecido ao final, na hora de sua morte, não é nada se comparar com o que ele já vinha aprontando: roubando, matando, tendo ataques de fúria descontrolados, assumindo crimes que não eram seus para escapar de piores que havia cometido, enfim. A baixa estatura era logo esquecida, uma vez que o carisma intimidador e a expressão enlouquecida atropelavam e fascinavam qualquer um. Por essas e outras é que o valentão obsessivo Cody é um dos gângsteres definitivos do cinema.

1 – “Dirty” Harry Callahan (Perseguidor Implacável e seqüências)


“Eu sei o que você está pensando: “Ele atirou seis tiros ou apenas cinco?”. Bem, para te dizer a verdade, com toda essa excitação eu meio que perdi o controle. Mas sendo essa uma Magnum .44, a mais poderosa arma de fogo manual do mundo, e que literalmente explodiria a sua cabeça, você tem que se perguntar uma coisa: Eu me sinto com sorte? Bem, você se sente, vagabundo?”

É com esse estilo sucinto e na lata que Eastwood entrou para os anais da história da testosterona. Harry é o mais implacável combatente do crime que o cinema já viu. O sujeito é praticamente uma máquina de combate: sua namorada é seu revólver Magnum (porque, segundo ele, é boa para atravessar vidros de carros em fuga), é preconceituoso, leva a sério a filosofia que “bandido bom é bandido morto” e está sempre vestido com um terno impecável.

Esse personagem totalmente politicamente incorreto, mas com um firme senso do dever, é praticamente o marco zero do personagem durão, que nunca dá para trás, encara o que der e vier, tem um humor tão bom quanto um ditador de republiqueta numa manhã de domingo e tem as opiniões gravadas em pedra. A impressão que dá é que a palavra foi criada logo depois de assistirem o filme. E caiu como uma luva. Ainda hoje, Perseguidor Implacável é a epítome do “cinema macho”, incansavelmente copiado e referenciado. Muito se deve ao carisma de Clint, que fez de Harry um personagem sempre lembrando em qualquer categoria que seja. Mas quando assunto é ser badass, Harry é o campeão absoluto e invicto.

Menções honrosas: John Shaft, em Shaft; Lt. Frank Bullitt, em Bullitt; Carlito Brigante em O Pagamento Final; Capitão/Tenente Coronel Nascimento em Tropa de Elite 1 e 2; Bennie, em Traga-me a cabeça de Alfredo Garcia; Snake Plissken, em Fuga de Nova York e Fuga de LA; Douglas Quaid, em O Vingador do Futuro; Popeye Doyle, em Operação França; entre muitos outros.

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