– por Allan Kardec Pereira

Na produção de uma cinebiografia de um personagem famoso, acredito que alguns elementos devam sobressair, para além de uma verossimilhança que agrade aos fãs do artista. Não adianta, se enquanto musical,  Gainsbourg (Vie Héroïque) abarca todas aquelas canções famosas do artistas, conferindo as mesmas tudo aquilo que se espera, colocando em tela todas as historietas conhecidas até por aqueles que nunca ouviram ao menos o Histoire de Melody Nelson, enquanto cinema, o filme peca não apenas pelo tradicionalismo, quanto também pela duração do recorte temporal (parecido com o que cobre o Cristo da Bíblia). De forma que, o filme revela um Serge que se não nos coloca nada de novo, que se não investiga o personagem, acaba por reafirmar clichês sobre o mesmo. (Re)cria-se um personagem inumano, que nunca parece ser problematizado, mas que, mesmo assim, ainda consegue espasmos agradáveis, afinal, a história de Gainsbourg, independente da forma como seja abordada, é por demais interessante.

Mais tais problemas do filme se devem mais a direção do inexperiente diretor, o quadrinista Joan Sfar. Embora alguma de suas opções narrativo-estéticas se mostrem interessantes. Uma delas, por todo filme, um boneco de Serge gigante com traços caricaturais faz o papel de alter-ego do artista. Por outro lado, o diretor parece não mostrar muito talento quanto à criação de cenas (há uma constrangedoramente ruim, quando Gainsbourg e Birkin vão até um editor – que, pasmem, é o Chabrol fazendo uma ponta pastelão terrível – mostrar “Je t’aime… moi non plus”). A Paris do filme é indie. A fotografia beira uma estilização calcada na saturação de cores “fofas” à Amèlie Poulain.

A falta de peso quanto a direção de cenas não condiz com a qualidade do elenco e a semelhança absurda do elenco. Eric Elmosnino é absurdamente parecido com Gainsbourg (sério, demais !!!), a bela loira que faz Bardot, Laetitia Casta, embora não se pareça tanto, nem cante muito bem, é dramaticamente interessante. Lucy Gordon faz uma Birkin interessante, mas o destaque fica mesmo por conta de Anna Mouglalis, no papel da sedutora cantora e atriz Juliette Gréco.

Penso ser inevitável comparar tão cinebiografia à “Não estou Lá”, sobre o Dylan, dirigida pelo excelente Todd Haynes. Pois se Haynes pega o seu Dylan e o destrincha enquanto artista, busca através de várias faces um denominador (in)comum sobre aquela persona, Joan Sfar, talvez por amar demais o projeto, Gainsbourg, acabe, muitas vezes, pecando por colocar em tela aquilo que todos sabemos do artista.

Enfim, embora o resultado não seja de todo mal, as tramas familiares de Gainsbourg acabam atrapalhando um pouco o desenvolvimento da história, soando muitas vezes apressado. O diretor acaba trabalhando três eixos narrativos. O artista, o filho e o Dom Juan Gainsbourg. Não obstante a falta de sexo (um homem com tantas mulheres, e com uma fama de comedor tão grande, deveria ter ao menos uma cena dignamente hot no filme), no trajeto, o filme se perde um tanto de vezes – personagens aparecem e somem do nada, desde o início do filme, na infância de um Lucien Ginsbourg (nome real do artista ) escondido dos nazistas. Embora, há de salientar, o filme cresce muito em sua segunda metade, na fase mais polêmica e mais rica musicalmente de Gainsbourg, como na cena da gravação de uma versão raggae da Marselhesa, ou do ” L’Homme a Tete de Chou”, enquanto “Histoire De Melody Nelson”, sua obra-prima, passe voando, sem nunca mostrar a reação de mídia em fãs de um modo mais claro. Fica o mito Gainsbourg e a fumaça de seus Galoises.

3,5/5

Ficha Técnica: Gainsbourg – o Homem que amava as Mulheres (Gainsbourg (Vie Héroïque)) – 2011. Dir.: Joann Sfar. Elenco: Eric Elmosnino,Kacey Mottet Klein, Lucy Gordon, Laetitia Casta.

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