– por Michael Barbosa

O humanismo, enquanto corrente filosófica, destacava-se pelo posicionamento antropocêntrico, tendo como fim o ser humano, o nosso semelhante e assim buscando a valorização da vida do homem. Apesar de ter sua semente em tempos de renascentismo o humanismo insistiria em ressoar por toda filosofia e arte que o sucederia, impondo influência determinante, por exemplo, nas correntes realistas já do século XIX e passando por esse intermédio chegaria até ao Irã, onde uma mulher de nome Forough Farrokhazad desafiaria a misoginia e o pré-estabelecido e entregaria alguns belos poemas e A Casa É Escura, um curta metragem de documentário que nos seus míseros vinte minutos aproximou o cinema do humanismo e do realismo como nunca, tudo sem perder a poesia.

Logo no começo temos uma promessa: imagens serão mostradas e quem tiver um pingo de compaixão não conseguirá ficar indiferente a elas. E bem, Farrokhzad não promete nada a mais do que está apta a cumprir, o que temos em seguida é um retrato cru de uma cidadezinha do Irã onde os leprosos eram “jogados”. São crianças e velhos; mulheres e homens em idade ativa, deformados e caindo aos pedaços, com os dedos se juntando e a pálpebra colando aos olhos. Tudo sem o mínimo resquício de sensacionalismo, a questão aqui é simplesmente expor imagens de sujeitos que são da mesma espécie (e sim, esse o termo apropriado, realista, naturalista) que o espectador, o questionamento é, por conseguinte, filosófico e até biológico, onde fora parar aquele senso de preservação do semelhante?

Uma câmera documental sem pudor, um preto e branco rústico e no fundo poemas de autoria da própria diretora e trechos do Corão que são responsáveis por dar um quê de diferente àquilo que poderia ser apenas um documentário ortodoxo. E ao subverter convenções do gênero documental com essas inserções poéticas o que Farrokhzad faz é construir nesse seu único filme um legado para o cinema iraniano, jovens artistas como um tal Kiarostami (à época com 22 anos) assistiriam a filmes como A Casa É Escura e viriam ali o caminho para reescrever a história do cinema iraniano no que ficaria conhecido a “new wave” da sétima arte por lá.

Se Khaneh siah ast não conseguiu desbravar as fronteiras persas quando do seu lançamento e a morte prematura de Farrokhzad com apenas 32 anos se revelou uma perda e tanto ao menos ficou esses pequeno expoente pulsante de humanismo e filosofia da mais tocante. Capaz de influenciar toda uma geração e possibilitar alguns dos cineastas mais interessantes da nossa época.

4/5

Ficha Técnica: A Casa É Escura (خانه سیاه است) – Irã – 1962. Dir: Forough Farrokhzad.