– por Guilherme Bakunin

Impressionante como o Woody Allen consegue criar essas histórias simples e formatadas mais ou menos da mesma forma há mais de 40 anos sem passar a impressão de ser um cafajeste, um aproveitador, um disparate, mas um artista que descobriu como fazer e, desde então, faz. Meia-Noite em Paris envolve os mesmos conflitos existenciais, matrimoniais e artísticos de dezenas de outros filmes do cineasta, e não é exatamente a roupagem que o destaca. Mesmo que o diretor faça filmes tão parecidos, existe alguma coisa que torna cada um, com o perdão da doçura, especial. A individualidade de cada filme muito provavelmente reflete a sinceridade e humildade com os quais Woody investe no seu trabalho. A arte é uma reflexão do indivíduo e Woody apenas resolveu mostrar uma parcela de si mesmo nesses últimos 40 anos.

O aguardado ‘filme de paris de Woody Allen’ mostra Owen Wilson, o romântico, neurótico e saudosista alter-ego do diretor em uma viagem de verão à capital das luzes lidando com a futilidade de seu tempo, com a prepotência de seus amigos, com os embates políticos de sua família, até que enigmaticamente ele consegue voltar à significativa Paris dos anos 1920, a mesma que ele admira, lar de monstros como Duchamp, Pound, Eliot, Buñel, Porter, Miró, Picasso, Man Ray, Dali e, especialmente, Fitzgerrald e Hemingway, grandes ídolos do escritor-protagonista. O personagem de Owen Wilson então, encara a dicotomia entre um presente opaco e um passado iluminado por grandes mentes e grandes momentos.

O guia de Wilson, no entanto, não será uma grande mente do crepúsculo da arte europeia, mas Adriana, uma linda dondoca anônima, adorável em sua falta de aptidão artística, fatal nos seus encantos femininos, groupie. Interpretada por Cotilard, Adriana passeia pelas calçadas parisienses, sob as luzes, por entre os cafés, seduzindo-o ainda mais para uma época em que ele não pertence. É assim que Meia-Noite em Paris emerge como a reflexão mais terapêutica de Allen nos últimos anos. A jornada do personagem de Wilson preocupa-se em convencê-lo que o saudosismo é uma ilusão agregada de problemas de auto-estima e conflitos não resolvidos; que engrandecer épocas mitificadas e cuspir em seus próprios dias é uma celebração da auto-enganação: o homem sempre buscará reconforto na história para amortecer os problemas de sua própria modernidade.

Gil se convence dessas observações ao confrontar-se com seu prório anjo-da-guarda. Adriana, uma contemporânea da grande paris dos anos 1920 diz que a época de ouro da cidade são os anos 1890. O aparente disparate leva o personagem de Wilson a decidir-se em voltar para 2010. Meia-Noite em Paris é simples, fechado, mas coerente. Possui um protagonista que inquire, que se desenvolve, que se rende, uma galeria imensurável de personagens bem construídos que mesmo com pouco tempo de ação conseguem fazer-se vistos, e consegue, acima de tudo, ser bastante claro e objetivo a respeito de suas propostas ao espectador. É um grande exemplar dos filmes pós-Match Point, que fazem parte da última fase de Woody Allen. Figura junto com Vicky Cristina Barcela, O Sonho de Cassandra e o próprio Match Point como os mais coerentes trabalhos dos últimos anos do cineasta.

– Adorei a forma como Allen trabalhou com as referências. Não soa nada como um desfile da própria intelectualidade do Woody (até porque são referências básicas para quem gosta de ler, gosta de ver filmes, gosta de arte). Não são despejadas desnecessariamente na tela, mas bem colocadas dentro de um contexto útil e interessante.

– A dicotomia entre o paradoxo dos dois tempos rende momentos interessantes. Gil encomendando “uns sete” Matisses por 500 francos, ou entregando o argumento de Anjo Exterminador, por exemplo (alguém chegou a ver o filme sem que alguém no cinema falasse “ele tá falando do Anjo Exterminador” pra pessoa do lado?)

– O persoangem do Wilson acaba terminando com um anjinho francês interpretado por Léa Seydoux (a “Bela Junie” de Honoré). Um ex manchina sinceramente dispensável pra história. Woody utiliza a personagem de Gabrielle para mostrar a Gil que o presente é interessante e une os dois no final como reflexo da esperança que o próprio personagem deposita no seu tempo. Um final mais emblemático custaria menos ao filme.

– O subestimado fotógrafo Darius Khondji trabalhou com Woody Allen em Igual a Tudo na Vida (2003) e voltou a atuar aqui, pontuando muito bem a opacidade dos tempos modernos com a embaçada luminosidade dos anos 1920.

– Carla Bruni muito linda mas muito incomodada de estar no filme. Decepcionou. Por outro lado, sempre um prazer ver um filme de 12 milhões de dólares reunir atores dos mais bem pagos de Hollywood hoje em dia. Cotillard, Wilson, McAdams, Sheen, a própria Seydoux, e até por trazer Brody pra um cameo dá o tom da influência ‘intelectual’ (risos) que o Woody ainda é capaz de incitar em Los Angeles. Claro que a absoluta falta de rumo de Hollywood também não ajuda.

– Os debates políticos (que acabaram dando às caras em duas ou três cenas no filme, infelizmente) entre republicanos e democratas lembra bastante os de outro filme de Woody, Todos Dizem Eu Te Amo (1996), um dos grandes filmes de sua carreira. Além disso, Meia-Noite possui um elemento de escapismo na sua história (Gil tentando escapar do seu fracasso artístico como escritor de romances, culpando sua época) que reflete muito certos elementos de Rosa Púrpura do Cairo (1985).

4/5

Ficha Técnica: Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris) – EUA/França, 2011. Dir.: Woody Allen. Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Carla Bruni, Marion Cotillard, Corey Stoll, Alisson Pill, Tom Hiddlestorn, Adrian Brody, Kathy Bates.

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