– por Michael Barbosa

Assistir a um filme como Psicose, um desses que a cinefilia enche a boca para chamar de “essencial”, é, num primeiro momento, sobre tentar entender como algo pode ser tão grande dentro da sua arte. O que pode haver, afinal, num suspense que faça desse um dos filmes mais lembrados da história, dono de uma das cenas mais conhecidas que existe e – e nisso só consigo me lembrar de O Poderoso Chefão em nível semelhante – um dos filmes que mais chega próximo de algo que poderíamos atrever a chamar de unanimidade?

Marion Crane (Janet Leigh) é uma bela moça que rouba 40 mil dólares e foge sem um plano pré-estabelecido; nervosa, falha uma vez atrás da outra ao tentar não demonstrar atitude suspeita e numa tempestade acaba parando num desses motéis de beira de estrada, o esquecido Bates Motel, de um dono (Anthony Perkins, irretocável) peculiar porém receptivo, e a priori um bom moço acima de qualquer suspeita. Após um lanche e um papo vem um banho e aquela que provavelmente é cena mais famosa e referenciada da história do cinema, tudo isso ali na primeira metade da projeção, corajoso assim Hitchcock vai e assassina sua protagonista. Adiante o que temos é a construção de Bates e o exercício de manter a dúvida presente até o desfecho, numa metralhadora de sugestões que nos faz cogitar uma infinidade de possibilidades sobre aquela velha na cadeira de balanço e seu filho submisso.

Falar em influência é uma outra história, Psycho deu boa parte das bases que o sub-gênero do slasher seguiria daquele ano em diante, inclusive no que cabe a usar o famigerado Ed Gein como inspiração (o mesmo que seria relembrado tanto na insanidade de O Massacre da Serra Elétrica quanto na eloquência e classe de O Silêncio dos Inocentes); entrou pro hall daqueles “filmes-paranoia” que faz um estrondoso sucesso e provoca quase uma epidemia de fobias, com direito a Hitchcock recebendo uma carta de um pai desesperado com sua filha que estava como um profundo medo de tomar banho – efeito próximo seria incrivelmente alcançado novamente apenas três anos depois com Pássaros; as sátiras, as referências, as sequências dispensáveis, a “homengem” de De Palma com Vestida Para Matar e até o sem noção remake quase que  frame a frame de Gus Van Sant, tudo corrobora, Psicose ganhou proporções imensuráveis.

O filme dialoga, ora, sobre a tal psicose em si, mas do que na especificidade do caso de Bates é sobre as fronteiras dessa psico-existência, da possibilidade de existir dentro da própria mente. Parte do mérito está exatamente em ir a fundo nas doenças da mente, é sair da superfície e se propor a analisar realmente uma psicopatia, e sobre essa óptica, até um monólogo de um psicólogo, num momento já derradeiro do filme se mostra indispensável nisso, ir tão a fundo quanto possível, deixar coisa demais em aberto não parece uma opção, pois Hitchcock buscou forma e conteúdo no máximo, um exercício de atmosfera irretocável e um estudo da psico humana.

Conforme a trama se desenvolve e vemos Bates numa espécie de epopeia criminosa vemos a atmosfera ficar mais pesada numa narrativa que dá a sensação de afunilamento, o nosso bom rapaz de outrora é agora um já desesperado criminoso, que não poupa esforços para encobrir os crimes da mãe, o que vemos, então, é a separação da história em duas: paralelamente os esforços de Bates para esconder e os da irmã e do amante de Marion para descobrir enquanto tudo indica e cria a expectativa para o momento que tudo se encontra novamente.

A cada nova informação fica mais fácil entender porque é Hitchcock o mestre do suspense. Informações somam-se no imaginário do espectador e o efeito é um exercício intelectual intenso para – mesmo atrelado fortemente nessa experiência que é Psycho – conseguir desvendar o que ainda não encaixa: o delegado diz que ela está morta, mas nós já vimos ela no colo de Bates, mas ela foi enterrada, mas isso e aquilo… Na base do benefício da dúvida Hitch tem toda a atenção necessária para entregar uma eletrizante sequência dentro da casa principal e ali mesmo entregar o inesperado fim. Os esforços do diretor em comprar tantas edições do livro quanto pode para tentar evitar que soubessem do que se tratava se justifica, pois há algo de muito poderoso em ver Bates travestido como sua mãe pela primeira vez e sem esperar tal, é deprimente e preocupante, o bom moço da primeira impressão da sua primeira aparição escancarado como um doente mental, é o lado mais sombrio da América na tela. O que resta é apenas a dissecada final por parte do psicólogo: o ciúme e a superproteção pela mãe transformaram Bates num assassino e num doente, em algum momento o zelo virou complexo.

É mais do que a cena do chuveiro (o que já não seria pouco), é Hitchcock no máximo, num filme que mais de 50 anos depois ainda funciona e o faz por se apoiar na base do cinema, na tensão, na fotografia, nas sombras e no poder das personagens e do argumento. Alguns poucos filmes são capazes de deixar marcas realmente profundas na produção cultural que o sucede, Psicose é um desses, palmas a Hitchcock, um dos maiores.

5/5

Ficha Técnica: Psicose (Psycho) – 1960, EUA. Dir: Alfred Hitchcock. Elenco: Anthony Perkins, Vera Miles, John Gavin, Martin Balsam.