– por Michael Barbosa

Quando Matthew Vaughn fez Kick Ass, no ano passado, arrancou suspiros de boa parte da crítica e dos cinéfilos. Era um cinema estilístico, visualmente arrebatador e tematicamente ousado. Parecia ser um daqueles caras que respiravam Tarantino e que, quando finalmente pegavam nas câmeras, conseguiam fazer mais do que uma versão, faziam um cinema com um quê de autoral bem forte, uma pegada realmente corajosa. Mais ou menos esses mesmos  que suspiraram por Kick Ass torceram o nariz quando a Fox anunciou que seria ele o responsável por tentar tirar do buraco a franquia do X-Men, depois de dois filmes bastante mal sucedidos (o terceiro episódio e um filme dedicado ao Wolverine) e mais ainda quando se revelaram as pretensões dessa tentativa derradeira para reerguer os mutantes: um prequel focado na origem da rivalidade entre o Professor Xavier e Magneto e fortemente focado no contexto histórico, além da evidente censura à violência gráfica tão expressiva em Kick Ass. Parecia marcada para dar errado.

Bem, como já diria Douglas Adams, vamos evitar expectativas desnecessárias e adiantar que Matthew Vaughn sai dessa história fortalecido e que o filme é, sim, bem sucedido, e é por uma série de questões que parecem realmente estritamente conectadas à capacidade de Vaughn. Primeira Classe é uma vitória, mais do que tudo, por não ter pretensões fracassadas, é tudo aquilo que queria ser e até além.

Um dos argumentos principais do enredo parece ser desconstruir a imagem mal construída do personagem Magneto pelos primeiros filmes. Ora, aquele maniqueísmo todo de time do bem e time do mal só não é mais tosco porque já estava no limite. Simplista num nível quase ofensivo. E é esse “mito do maquiavelismo do Magneto” que é devidamente desconstruído, dessa vez dando a devida complexidade a fazendo dele um personagem – finalmente – crível. O mesmo é feito com a Mística (Jennifer Lawrence, a gatinha de Inverno da Alma, aparece pela primeira vez pós Oscar e manda bem de novo). Até mesmo Xavier sai ganhando nisso tudo, continua sendo aquele sonhador da trilogia original e dos quadrinhos, mas agora um tanto mais complexo nos seus porquês.

Falando em quadrinhos, essa acaba sendo uma boa oportunidade para discutir a coisa toda sobre fidelidade na adaptação. Vaughn, nerd de carteirinha, conhece sim a HQ. Não resta dúvida disso quando vemos que esse prequel tem sim a preocupação de desfazer detalhes que incomodavam os fãs, mas ao mesmo tempo deixa prevalecer a autonomia criativa e fica claro que o que tem que vir como prioridade é o resultado final. A transposição de mídia (seja lá de qual para qual) não é lá um processo muito lavoisiano; inevitavelmente, material é perdido, esquecido ou ignorado, mas há também de aceitar isso de bom grado desde que seja em prol do resultado final: um bom filme.

A história em si é boa, os X-Men são uma dádiva do entretenimento, o tema das mutações genéticas vem se mostrando bastante atemporal e há ali potencial de sobra para boas histórias para esse e mais alguns filmes, jogos ou o que quiserem fazer, e essa sobre como se forma a polarização da causa mutante entre Xavier e Magneto é uma delas. É por não se subestimar, por acreditar no poder de convencimento do contexto histórico de Guerra Fria (num recorte histórico realmente muito bem feito), por não ter medo de usar a metáfora USA-CCCP/Xavier-Magneto de forma inteligente e por dispensar análises, conclusões ou personagens rasas, tudo isso suportado por um diretor que sabe o que faz, que, mesmo  claramente podado (e nisso um dos medos lá do início se confirma) no quesito violência e com um orçamento não lá tão pomposo, consegue entregar algumas sequências que enchem os olhos e trabalhar de maneira bem acima da média com os recursos que tem: dos efeitos que se não são o suprassumo ao menos seguram dão conta do recado ao elenco cheio de bons atores, como a já citada Lawrence e os protagonistas Fassbinder e McAvoy.

X Men: Primeira Classe parece ser, no fim das contas, um acerto a se comemorar, pela escolha do estúdio por um sujeito que vai bastante adiante daqueles estereótipos de pau-mandado-do-produtor (tão comum no segmento dos blockbusters das grandes franquias) e por essa escolha ser recompensada com uma realização feliz do Vaughn que, desconfianças à parte, mais ganha do que perde gente simpática ao seu estilo, que, mesmo com as restrições que teve, deixa bem clara a sua marca. Cinéfilos, fãs do quadrinho e meros espectadores, comemorem, Matthew Vaugh sabe a que veio e veio para ficar.

4/5

Ficha Técnica: X Men: Primeira Classe (X-Men: First Class) –  EUA, 2011. Dir: Matthew Vaughn. Elenco: Kevin Bacon, James McAvoy, Michael Fassbender, Rose Byrne, Oliver Platt, Álex González, Jason Flemyng, Zoë Kravitz, January Jones, Edi Gathegi, Caleb Landry Jones, Nicholas Hoult, Lucas Till, Jennifer Lawrence, Laurence Belcher, Bill Milner.