– Allan Kardec Pereira

A grande questão de qualquer romance no cinema atual é sua novidade, a relação que ele impõe entre sentimento e o fazer cinematográfico, o que de tão relvante o filme coloca em um filão que desde “E o Vento Levou…” é garantia de público certo, embora nem sempre de boas críticas.

A fluidez da narrativa serve pra marcar os dois pólos de um relacionamento que parecia perfeito: o começo, inusitado e apaixonante, com os dois feito criança se conhecendo; e o final, onde vemos ambos, de maneira diferente, pensar porque não dá mais certo. Nesse sentido, os flashbacks reforçam de maneira interessante pra dimensionar o tamanho da perda que agora acontece, e o quanto esse final também vem carregado de várias coisas que não são fáceis de acreditar serem irrelevantes.

Recentemente a dor da perda, o inconformismo diante do que parece ser óbvio, diante do simples fato de que “o outro lado não te ama” , havia sido magistralmente trabalhado em “Two Lovers”, de James Gray, com o qual o filme de Cianfrance guarda alguma semelhança. Em ambos, os homens são aqueles que no fim sofrem por acreditarem sozinhos. Ora, em determinado momento, Dean (belíssimamente interpretado por Ryan Gosling) fala que os homens são mais românticos que as mulheres, pois elas estão preocupadas em se casar com aquele determinado tipo, tal emprego, tal status (sempre se encantando com o primeiro ou com o próximo namorado), já os homens , escolhem aquela que eles consideram exatamente especial. Verdade ou não, no plano da ficção, as coisas parecem tender para esse tipo de realidade.

Aliás, realidade é algo interessante de se pensar o clima entre o casal. Pois, ao contrário do que o alegre título nacional sugere, não se trata, como já dito, de uma historinha de amor eterno. O blue do título original sugere uma relação agora fria, triste. E, para além do significado da palavra em si, o filme explora tal proposta em termos de fotografia e da sensibilíssima trilha, que conta inclusive com interpretações de Gosling.

O final antológico, depois de tantas brigas. Depois de ambos terem ido para um motel (não à toa a decoração escolhida para o hotel é extremamente fria e sufocante) e nem sequer terem conseguido transar depois de bêbados, traz uma das mais velas cenas do cinema recente, quando indignado, após brigar com a esposa no trabalho dela, Dean joga a aliança fora. Imediatamente, aos prantos, segue para procurar; mesmo magoada com o marido, Cindy (Michelle Williams, que foi indicada ao Oscar por essa atuação, inclusive)vai junto procurar. E só ver pra crer que uma cena dessa existe em termos de cinema. Lindo e melancólico de ver.

4/5

Namorados para Sempre (Blue Valentine) – Estados Unidos, 2010 – Diretor: Derek Cianfrance – Elenco: Ryan Golsling, Michelle Williams, Mike Vogel, Ben Shenkman.

 

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