– Guilherme Bakunin

Existem inúmeros significados para “On Dangerous Ground”, título original de Cinzas que Queimam, de Nicholas Ray. O arcabouço de possibilidades é tão extenso, que abarca não apenas as noções narrativas dos protagonistas (interpretados por Robert Ryan e Ida Lupino), mas também dos personagens secundários. A história é similar a Vivendo no Limite, de Scorsese: acomapnha cadenciadamente a rotina de um grupo de vigilância noturna a serviço da polícia. Jim Wilson, o herói, sente as marcas psicológicas desse trabalho, desenvolvendo uma gigantesca aversão ao convívio social e uma emblemática desesperança no homem. Saturado, Jim torna-se agressivo e é finalmente enviado numa missão ao interior dos Estados Unidos para investigar o assassinato de uma garota.

No primeiro ato, Ray entrega (junto com o score de Hermann, praticamente um exercício de como trabalhar em Taxi Driver, filme com contornos similares, quase trinta anos depois) um conto melancólico a respeito desse homem que não consegue suportar o fardo de lidar com uma situação que claramente está fora de seu controle. A angústia de Jim se transforma em rancor e surtos pontuais de violência, a única maneira que o trágico herói de Ray encontra para enfrentar o descontrole do caos metropolitano do qual é empregado (o trabalho de Jim é a noite, existe em função dela). Esse cenário constitui a primeira e mais clara explicação ao título original do filme. Os letreiros iniciais surgem diante de uma paisagem urbana, noturna, muito provavelmente o ponto de vista do próprio protagonista, on dangerous ground.

Numa das cenas mais poderosas, Ray dá um dos primeiros uivos do cinema moderno. Jim encontrou um suspeito que possui informações vitais para uma de suas investigações. O suspeito reluta em falar e Jim discursa “por que você me obriga a fazer isso? Você sabe que eu sou capaz de fazer isso, então por que me obriga?”, enquanto desfere uma série de murros no suspeito então-fora-da-tela, fusionando essa imagem visceral (o close no rosto de um homem com atitude de extrema violência) com uma paisagem urbana-noturna. Ray grita sua misantropia com decupagem tão criativa, que demoraria algumas décadas para que hollywood assimilasse esse vocabulário.

As tramas da história desencadeiam uma série de eventos (os quais lhes serão poupados, muito melhor ver o filme do que ficar lendo a história dele) que levam ao segundo ato, onde Jim se encontra no interior gélido investigando o assassinato de uma criança. O que basicamente ocorre aqui é um processo de humanização do protagonista, que acidentalmente encontra Mary Malden, uma garota cega com um irmão bipolar, o que reativa seu senso de bondade. A transposição da paisagem urbana afetada noturna é essencial para a desconstrução do protagonista que conhecemos nos primeiros trinta minutos de filme. Branco, amplo, natural, dicotomizando com o negro, claustrofóbico e alterado da cidade, apacentando Jim. A transposição é tão importante e tão observada por Ray, que você pode praticamente sentir o calor (em inglês, heat, não necessariamente como a palavra que define um estado térmico, mas algo mais amplo, gravitando em torno do conceito de violência do momento, ímpeto da destruição ou qualquer coisa assim, desenvolvido em diversos filmes como Fogo Contra Fogo, de Michael Mann, ou Faça a Coisa Certa, de Spike Lee) indo embora, esfriando os animos do protagonista (em inglês, cool, que não apenas frio, mas também calmo).

O processo de “humanização” (deixando em aberto as possibilidades aqui de diversas leituras a respeito do que seria na verdade essa humanização: uma castração do sentimento?, uma repressão comportamental? e etc) do protagonista também ocorre através de um confronto ditocômico: o pai da garota assassinada está obssecado em conseguir sua vingança, baseando-se no princípio de talião (olho por olho, dente por dente, ideia que foi modernizada e americanizada com as fantasias do velho oeste nos filmes) para alcançar esse objetivo. A sede por sangue de Walter Brent (Ward Bond numa interpretação elogiada) é tão intensa, que a figura do bom pai de família se confunde com a de um psicopata, alfinetada certeira em toda a propaganda social do período. Ao enxergar em Walter a própria loucura, Jim é obrigado a encarnar a razão dentro da pequena investigação, obrigando-se a permanecer calmo e pensativo para não estabelecer nenhum juízo equivocado. O confronto de ideias dá as caras mais uma vez nos créditos finais, numa canção de tom geralmente definido como harmonioso (mas que na verdade é apenas uma música instrumental melosa) enquanto o “The End” aparece frente à paisagem do campo, constratando diretamente com o início já mencionado.

Existe ainda uma relação de forte correspondência entre os personagens principais. Mary, a garota cega que se fecha para a vida para cuidar do seu irmão doente, e Jim, o policial sociopata. Ambos enclausuraram-se do mundo por estarem diante de situações irremediáveis e juntos encontram a chave pra se libertarem dessa prisão. A respeito disso, clydefro do website noiroftheweek, diz, e assim eu encerro: “These are classic Ray characters, soul mates so disaffected with others that they struggle to recognize their path to redemption and contentment.”.

5/5

Ficha técnica: Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground) – EUA – 1952. Dir.: Nicholas Ray. Elenco: Robert Ryan, Ida Lupino, Ward Bond, Ed Begley.

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