por Bernardo Brum

Surgido junto com outros nomes da escola de Nova York na década de 50, como Martin Ritt, Arthur Penn, Elia Kazan e Nicholas Ray, Sidney Lumet fez parte de uma geração que deu o pontapé inicial para que nomes posteriores como Robert Altman, Francis Ford Coppola, William Friedkin e Martin Scorsese iniciassem a contracultura no cinema norte-americano.

Vinte anos depois, a maioria desses nomes estava esquecida, apesar dos preceitos estético-narrativos desse grupo ficarem bem difundidos (inspiração neo-realista e temas inconformistas e muitas vezes polêmico, como o buraco entre gerações em Juventude Transviada ou a repressão sexual em Clamor do Sexo), mas Lumet permanecia como uma brava exceção; apesar do excelente início de carreira, o diretor alcançou seu auge nos anos setenta, onde uma consciência libertária disseminada entre a juventude já era bem mais presente. Foi a década onde lançou três das suas obras mais conhecidas, Sérpico, Um Dia de Cão e Rede de Intrigas.

A exemplo do que já tinha feito em Doze Homens e Uma Sentença, Lumet prova que pode fazer um filme praticamente com apenas um cenário, durante grande parte da duração da obra, e sair de lá com um resultado final tenso, explosivo e dramático. Um Dia de Cão é um daqueles filmes onde reina o pensamento do “não há nada ruim que não possa piorar”. Com o envolvimento da imprensa e da polícia, um rotineiro assalto torna-se uma verdadeira “novela da vida real” de um minuto para outro, com reviravoltas surpreendentes, segredos sendo revelados em público e novos personagens sendo jogados no meio da história em ritmo frenético.

Lumet, que saiu da televisão para trabalhar no cinema, era um observador quase obsessivo da cultura de medo e consumo instaurada pela mídia. Ainda hoje, suas críticas de trinta, quarenta anos atrás, ainda doem: a cultura depravada de anos atrás ainda é basicamente a mesma. Há mais acesso a informação, é verdade, mas todos ainda continuam tão impressionáveis e manipuláveis quanto antes.

Já um veterano à época, então, o diretor falava dos mesmos problemas há um bom tempo. Um Dia de Cão, enquanto debate como mídia, já criticava, então logo nos primórdios da massificação cultural, das imagens ao vivo, diretamente do local, e como ele construía uma realidade maior que a original. Não é de se estranhar que o golpe de dois homens desesperados e marginais vire uma comoção nacional; ainda acontece, o tempo todo, mais do que a gente percebe.

Despida de maneirismos, a direção combina com um roteiro com uma forte carga socio-política. Não é apenas a ação da mídia que é criticada, mas também o próprio Estado (que é tão violento quanto qualquer bandido que persegue, como testemunhamos já na clássica cena em que Pacino, na porta do banco que assalta, grita “Attica!” para a polícia e o público, o que acaba retraindo a ação policial e mexendo com as pessoas que estavam assistindo – a morte das 39 pessoas na rebelião do presídio ainda estava fresca na memória americana).

Tal como Nicholas Ray, Lumet tinha certa compaixão por gente desajustada, marginal, que nunca consegue se ajeitar na vida (seja o apresentador histérico em Rede de Intrigas, o penhorista traumatizado em O Homem do Prego o policial honesto de Serpico, a dupla de assaltantes de banco neste filme ou, mais emblemático anda, o único jurado que discordava em Doze Homens e Uma Sentença), sempre tirando daí questionamentos particulares acerca de certos aspectos sociais. Sempre vemos indivíduos desesperados se lançando em batalhas já perdidas porque todo o resto já está corrupto e apodrecido, e ainda assim, grande demais para poder ser combatido individualmente.

Ainda que não seja tão comentado tanto quantos outros de sua geração, Lumet mantém um espaço cativo no panteão dos diretores realmente relevantes no cinema moderno. Seja por incentivar junto a seus igualmente rebeldes e controversos contemporâneos a busca por novas linguagens e novas abordagens narrativas, seja pela impressionante consistência que manteve ao longo da carreira ou a acidez indignada com a qual montava suas obras, o recém-falecido diretor, com um legado gigantesco e obras ainda impressionantes, é o que podemos chamar de uma verdadeira instituição dentro do cinema norte-americano. E Um Dia de Cão é prova viva, dramática e pulsante disso tudo.

5/5

Ficha técnica: Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon) – EUA, 1975. Dir.: Sidney Lumet. Elenco: Lance Henriksen, Al Pacino, Carol Kane, John Cazale, Charles Durning, Chris Sarandon, James Broderick, Dominic Chianese, Penelope Allen, Beulah Garrick, Sully Boyar, Susan Peretz