– por Guilherme Bakunin

Nada Pessoal se propõe a refletir sobre o que acredita ser o ciclo natural da existência dos homens, relacionar-se e desprender-se. A história começa com Anne prostada sob uma janela observando pessoas do lado de fora remoendo seus pertences pessoais. No instante seguinte a garota está sozinha, no campo, vasculhando latas de lixo em busca de comida, acampando à praia deserta, caminhando aparentemente sem destino a procura de coisa alguma.

Ainda que sem buscar, ela encontra um homem solitário que perdeu a mulher e com a relutância de quem possui feridas abertas, aceita trabalhar para ele, sob o juramento de não se conhecerem. Mas eles se conhecem, cotidianamente, sem palavras.

O ciclo a que me refiro está inserido na perspectiva total da história contada nos 80 minutos de filme. Cinco vezes a narrativa é interrompida pelo interlúdio textual: Solidão, Fim de relação, Casamento, Início de relação, Só. É o que inversamente acontece na história, mas através de uma suposição quase lógica, deciframos o enigma de Anne (nome que só conhecemos através de um close-up em seus documentos), verbalizado pelas palavras de Martin, “quem é você?”.

A diretora e roteirista Urszula Antoniak parece não se preocupar com especificidades, generalizando a existência de seus dois protagonistas nesse ciclo que se repete durante o filme. Eles não são exatamente identificados, não possuem história, ideias, apenas sentimentos. Por serem capaz de sentir, eles existem dentro de seus universos particulares, numa dinâmica dolorosa de constante renovação de um ciclo interminável de apego e desapego, traduzindo em ações o que de mais trágico e patético no homem: a necessidade imediata de sempre se relacionar. É trágico e forte porque os laços entre duas pessoas são sempre extremamente frágeis e indicam uma condição de um momento. É instável, e um dia se parte. Partiu para Anna, que se desapegou do quase-lar que conseguiu criar naquela ilha desértica, e com a reticências daquele que ela deixou para trás, parte novamente em busca de qualquer coisa para se relacionar e se renovar.

4/5

Ficha técnica: Nada Pessoal (Nothing Personal) – EUA, 2009. Dir.: Urszula Antoniak. Elenco: Stephen Rea, Lotte Verbeek.

Anúncios