por Bernardo Brum

Especialista em dar declarações muito apropriadas sobre cinema em filmes de companheiros de profissão, como a comparação entre o cinema e um campo de batalha em O Demônio das Onze Horas, de Jean-Luc Godard, Samuel Fuller, em O Estado das Coisas, de Wim Wenders, observa: “Sem dúvida, a vida passa a cores. O preto-e-branco, porém, é mais realista”.

É esse o espírito que predomina dos créditos iniciais até o fade to black final de A Lei dos Marginais. Como em um noticiário popular (o título original foi retirado de um artigo em uma revista), o preto-e-branco de Fuller narra histórias urbanas, criminosas e sujas, tão violentas quanto qualquer filme de guerra, inclusive do próprio (como Capacete de Aço e Agonia e Glória), mas com uma dose extra de sombras, personagens se esgueirando por becos em contos de  vingança, golpes, roubos e assassinatos em nome de amor, rancor ou a simples liberdade de um mundo opressivo sem grandes perspectivas para ninguém que não esteja no poder.

A história de Tolly Devlin, um moleque de rua que vê seu pai ser assassinado em um beco, logo ganha fortes contextos sociopolíticos quando descobrimos que os autores do assassinato do seu pai agora são grandes chefões do crime e o mesmo sai em busca de vingança. Ele cresce de um garoto-problema para um homem obcecado que inclusive aceita ser preso para ficar perto de um dos assassinos. Nada o impede, nem a figura materna Sandy, nem seu interesse afetivo por Cuddles. É uma guerra cruel e inumana, onde nenhum dos lados pensam muito, pensam em apenas exterminar alvos e eliminar obstáculos. Nem crianças são poupadas.

Esse quadro fatalista, verdadeira ciranda estilizada de assassinatos, espancamentos e situações tensas resolvidas com uma decupagem precisa e implacável, é sintetizada em pequenas porém geniais set-pieces, desde o assassinato do pai do protagonista que ilustra esse post, até cenas como a da piscina e as reuniões dos mafiosos (onde um deles sintetiza: enquanto puderem influenciar o alto escalão governamental, terão autoridade sobre a sociedade por um período de tempo indeterminado).

Infiltrado na máfia pela polícia, Tolly joga um jogo perigoso, manipulado os dois lados em nome da sua vingança quente, irracional, quase niilista. É o mundo de Fuller: a polícia e o FBI são secundários, não importam aqui. O que está em primeiro plano é a selva de asfalto, os personagens ambíguos e sempre malditos, a atmosfera crua e seca, também sombria e assustadora o contexto marginal e sem esperanças. O título em português já diz: é a lei dos marginais. Um mundo invisível aos nossos olhos, mas que contém histórias como a retratada que se repetem várias e várias vezes ao longo das décadas.

Mas por mais fatalistas que sejam, os filmes de Fuller não são misantropia e fatalismo gratuito. São um apelo ao bom senso, como atestam cenas como a do garoto vendo o documentário sobre o holocausto em Proibido!, a confiança inabalável até a última cena do treinador negro do Cão Branco ou o desenlace final de A Lei dos Marginais; o americano não fazia filmes para atacar gratuitamente ou passar a mão na cabeça.

Suas obras eram apelos, de alguém de fúria underground que não confiava em instituições mas sim no indivíduo. Por mais desesperados que os mesmos fossem, ninguém era mais humanos ao tentarem sobreviver em um clube onde não foram convidados. Suas existências de objetivos baratos e términos rápido são a própria essência do film noir:  a emoção contra a opressão, tripas versus cérebro. Do ponto de vista de quem é presa na cadeia alimentar e observa tudo de baixo, invisível, nas ruelas.

Um filme rápido e simples, mas não por isso menos impressionante e impactante. Seu tom de urgência, cinqüenta anos depois ainda fala de forma direta e rápida ao lado sensível de cada um, explodindo seu exercício fílmico eternamente B em uma imagem mais forte que a outra. A guerra urbana e noturna, com cortes ríspidos e luzes fracas, no lirismo estilizado que o preto-e-branco por opção estética já obriga: Fuller sempre pegava pesado e sempre falava direto. Poucos conseguiram, depois dele, ter um poder de fogo tão sincero.

5/5

Ficha técnica: A Lei dos Marginais (Underworld U.S.A.) – EUA, 1961. Dir.: Samuel Fuller. Elenco: Cliff Robertson, Larry Gates, Robert Emhardt, Paul Dubov,Dolores Dorn, Beatrice Kay


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