por Guilherme Bakunin

Tá certo que o Código Hays, a conhecida legitimação da censura no cinema de hollywood, já dava, em 1955, seus primeiros passos rumo à extinção, mas ainda sim certas questões sempre eram postas à margem dos assuntos abordados no cinemão estadunidense como forma de autenticar a praticidade (humanamente inexistente, se me permitem a divagada) do chamado american dream. Billy Wilder é um cara que nasceu e cresceu na subversão, e certamente, como bom judeu polonês autoexilado de um mundo de horrores nazistas, não acredita no sonho americano. Na verdade, ele o detesta. Wilder chega aos Estados Unidos sem saber falar inglês, e engatinha no idioma para escrever sobre crimes, para zombar da guerra fria, para quebrar tabus.

Antes de você ver míseros dez minutos de O Pecado Mora Ao Lado, você já terá sigo tragado para pontuais críticas contextuais, tais como racismo, homossexualismo, adultério. Digo que são contextuais porque elas não possuem tanto o sentido de análise, normalmente associada à ideia da crítica, mas são faíscas que rapidamente acendem a se apagam, mais para chamar a atenção do espectador para um assunto que deverá ser aprofundado em uma outra oportunidade, num outro tempo – livros?, jornais?, etc – e não no filme em questão. É comum vermos Billy Wilder ser associado a uma ideia de comédia inteligente. Então, se o filho de Richard chama o carregador negro de ‘invasor intergalático’, ou se existem dois decoradores no andar de cima, completamente marginalizados em suas opções sexuais, você pode ter certeza que não é um acaso.

Mas o foco da questão de O Pecado Mora Ao Lado é fabular em cima do adultério. O título original faz referência ao surto psicológico no sétimo ano de casamento. Richard Sherman vive o sétimo ano de casado, sua esposa está fora da cidade passando férias e como uma presença monstruosamente delirante surge Marilyn Monroe, sua vizinha, que não mora ao lado, mas em cima. A personagem sem nome de Monroe possui uma ingenuidade idiótica, mas ao mesmo tempo uma autoconsciência de sua beleza e seus efeitos nos homens. E seguindo essa linha, os principais acontecimentos do filme se desenrolam – Sherman tentando em vão controlar seus “impulsos sociais” (comumente referidos como paudurência); e a vizinha consquistando-o, quase que sem querer.

No sentido de ser um filme sem conteúdo político, sem críticas sociais, mas uma fábula a respeito dos comportamentos urbanos, esse é, talvez, o filme que mais aproxime Billy Wilder de seu mestre, Lubistch. Do icônico levantar das saias da garota, à cada uma das tragadas do cigarro matrimonialmente proíbido, Wilder, baseando-se obviamente na peça  original, não abre mão de subverter os valores, provocar o público e a crítica, jogando ao léu tudo aquilo que de mais inadequado e antiético pudesse existir dentro desse campo (matrimônio) nos anos 50. Um cara do cineplayers definiu brilhantemente o que significa a crítica de Billy Wilder em suas comédias, especialmente nessa daqui. Fel. Um sentimento amargo, dentro de uma comédia.

Óbvio que hoje esse fel não está nem perto do que era em 1955. Hoje o casamento não é parte obrigatória na relação social de uma pessoa, o tabu do sexo foi quase completamente derrubado, os bons costumes foram imensamente questionados e etc. Mas isso de certa forma é uma vitória comportamental do próprio filme, já que eu não quero  ouvir uma pessoa  dizendo que o cinema não afetou o comportamento dessa nossa sociedade americana. Afetou, e muito. Junto com um monte de outras coisas. Back in the 50s, Billy Wilder não conseguiu o que – acredito – queria. O filme termina de modo prosaico, idiota mesmo. Mas ele não poderia ter ido mais longe, não naquele tempo remoto. Mas a gente assiste 90 minutos do filme, joga o resto no lixo, e vamos ficar aqui imaginando, através da sugestão de Libistch, Leisen, Wilder & tantos outros foram tão geniais em explorar.

4/5

Ficha Técnica: O Pecado Mora Ao Lado (Seven Year Itch) – EUA, 1955. Dir: Billy Wilder. Elenco: Marilyn Monroe, Tom Ewell, Evelin Keyes, Sonny Tufts, Robert Strauss, Oskar Homolka, Margeritte Chapman.

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