– por Michael Barbosa

A escolha da imagem do “Garoto” (como ele é chamado no filme) mostrando o dedo do meio e com uma frase engraçadinha nas costas é extremamente calculada afim de tirar a primeira impressão que a idiota tradução do título (no original Bad Santa) pode causar. Não, nada de sessão da tarde, politicamente incorreto demais pra isso, esse não é mais uma aventura sobre espírito natalino e seu poder, com certeza, pelo menos, não só isso, é um filme de Terry Zwigoff, o cara de Crumb.

“- Eu tinha uma barba de verdade, mas ela caiu quando eu fiquei doente.
– Como você ficou doente?
– Eu transei com uma mulher que não era limpa.
– A Sra. Noel?
– Não, a irmã dela.”

Bad Santa é a história do criminoso de nome Willie – Billy Bob Thornton mais kick ass do que nunca – que vive de golpes em shoppings na época de natal, planos meticulosamente preparados pelo seu comparsa Marcus – um anão negro. Cada vez mais beberrão e mais sem controle ou pudor Willie acaba, meio contra a vontade, jogado em duas relações inesperadas. Sue é uma atendente de bar que se atraí por ele graças a uma tara por papais noéis (sic), “acho que é porque minha família é judia”, diz ela. Mas a principal é com O Garoto, um gordinho desajustado sem pai nem mãe, carente e que se cria sozinho recém saído da primeira infância que se apega a Willie por necessidade.

Pode ser que pareça prosaico, mas não é. Cuidadosamente Zwigoff constrói o panorama de um sujeito depressivamente cômico e conformado com o que as oportunidades que a vida lhe deu, de alguma forma dotado de uma onisciência de como e porquê ele está ali: parte da culpa é dele e do vício, parte do pai violento como ele frisa bem. É tudo sobre construir e desconstruir uma personagem e no meio disso ir entregando algumas sequências com palavrões e números de música clássica.

O resultado é uma relação bastante sincera, uma daquelas redenções de anti-herois que temos por aí, só que com um ar de sinceridade quase desleixada e que simplesmente vai fluindo em um ritmo crível, e isso é essencial, e mais, é a essência de contar uma história como essa. Entregar um final que caminha na tênue linha entre a mensagem e o moralismo e sair ileso. A mudança de Willie não é súbita, é gradual. Aquele gordinho que no começo era um “mongoloide” para ele vai passo a passo se tornando seu salvador; e se – e tão somente se – eu não tiver viajando demais a metáfora é essa mesmo, O Garoto salvou O Pecador no natal, mas só até a página dois. Deixa Willie sair da cadeia para ver se ele não vai continuar traçando umas gordas e dando umas lições em quem merecer.

4/5

Ficha Técnica: Papai Noel às Avessas (Bad Santa) – EUA, 2003. Dir: Terry Zwigoff. Elenco: Billy Bob Thornton, Cloris Leachman, Ajay Naidu, Bernie Mac,Lauren Graham, John Ritter, Tony Cox, Brett Kelly, Ethan Phillips, Matt Walsh, Tom McGowan