por Bernardo Brum

As constantes aparições midiáticas ao longo dos anos acabaram por domar a relação entre Mojica e seu público a um nível mais pacífico. Das constantes idas à programas de auditório até a apresentação de programas em horários esdrúxulos, acabou-se tendo um conceito dócil do artista por trás da caracterização – como mais uma dessas figuras exóticas que lotam os programas de televisão e afins sedentas por mais audiência.

É ver como o tempo muda tudo; o doido hoje cômico e pitoresco lá em 1964 era sério caso de internação, alvo e estopim de controvérsia e polêmica. Era o ano em que Mojica surgia para o Brasil – e para o mundo – com o clássico seminal do terror feito abaixo da linha do Equador, À Meia-Noite Levarei Sua Alma.

Trangressor em vários sentidos, o filme em que Mojica debuta no terror (depois de se aventurar no western cabloco A Sina do Aventureiro e o drama de subúrbio Meu Destino em Suas Mãos) inovava ao mostrar um filme que já apostava no horror gráfico antes mesmo de Mario Bava e George Romero, com uma narrativa retirada dos quadrinhos da época que impressionou gente como Rogério Sganzerla pela ousadia e crueza ao abordar temas polêmicos – verdadeiros tabus à sociedade brasileira na época – e Glauber Rocha pela composição visual inédita até então no cinema de nosso país, como por exemplo, nos figurinos – o baiano acabou por admitir que o caçador de recompensas Antônio das Mortes era um filho bastardo do coveiro obsessivo Zé do Caixão.

O protagonista é um personagem pouco usual até os dias de hoje – um homem cético e amoral que visa criar a continuidade para sua existência através da criação de um filho perfeito com a mulher perfeita, não acreditando em transcendência divina alguma. É o que explica o monólogo de abertura, explicando que a vida eterna para ele, se dá através do sangue. Um übermensch Nietzscheneano, criado por um homem simples, cuja única cultura que possuía eram cinema e gibis –  como Sganzerla gostava de definir, Mojica era um gênio primitivo – suas idéias apresentavam densidade e questionamento espantosos para alguém sem o tal do refinamento intelectual.

Da simples provocação – como o desrespeito à mentalidade provinciana e comer carne na Sexta-Feira da Paixão – às torturas sádicas, Mojica narra uma história rápida e rasteira, meio com cara de folhetim, meio com cara de filme de Hammer, mas nunca deixando de falar sobre os horrores do nosso povo – o lado sobrenatural que passa a perseguir Zé depois que o mesmo mata uma grávida que momentos antes de perecer jurou levar a alma do coveiro é apenas o complemento ao contexto da violência física, não apenas do catalisador, mas de todos os afetados. A figura detestável de visual gótico traz o pior de dentro dos indivíduos tementes a Deus, a quem julgam como cordeirinhos em muitas das considerações.

O cinema de Mojica, após ganhar seu rosto definitivo, era então um cinema de confrontação constante. Deixa para lá a mera aventura dentro de um gênero, e passa a produzir experimentos estéticos cada vez mais radicais (alguns filmes seus seriam compostos de sequências filmadas para outros filmes, como Delírios de Um Anormal e Ritual dos Sádicos) e acusar, com a longa unha do coveiro e do diretor, uma besta reprimida. A grande missão do cinema de horror, afinal de contas, reformulada como Mojica num clássico mundial do gênero.

Desde o início, Mojica era orgulhosamente marginal e maldito. O real pária do cinema brasileiro, o homem que ainda põe fogo em mesas de discussão. Um fênomeno de difícil repetição: a comoção que suas provocações de baixo orçamento e estética barata provocaram ainda rendem muito pano pra manga. Afinal, o mundo talvez ainda esteja tentando alcançar Mojica, compreender o pioneirismo, a gana, o suor e o ódio emanado das suas obras. Mesmo que ainda não consiga, as velhas e longas unhas não cansam enquanto a missão ainda não estiver completa…

4/5

Ficha ténica: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (idem) – Brasil, 1964. Dir.: José Mojica Marins. Elenco: José Mojica Marins, Magda Mei, Nivaldo Lima, Valéria Vasquez,Ilídio Martins Simões, Eucaris Moraes

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