por Bernardo Brum

Desde o início da sua carreira com Permanent Vacation, Jarmusch mantém-se agarrado a um modo específico de fazer cinema. Quase 30 anos depois em Os Limites do Controle, sua obstinada idéia ainda não mudou.  Os mesmos temas, envolvendo protagonistas solitários, sem casa, sem identidade exata, sem lugar certo no mundo. A mesma linguagem, o ritmo lento, as tramas sem qualquer desenvolvimento dramático tradicional, as histórias contadas em segmento, os longos momentos onde nada de interessante para a cartilha tradicional acontece, os movimentos de câmera e cortes econômicos e calculados…

Tudo o que Jarmusch constrói contribui para a desdramatização, a fuga do conflito; a história de um homem envolvido em uma contratação ilegal – sempre recebendo as informações de maneira fragmentada através dos seus contratantes, que enviam mensageiros exóticos (como o mexicano de Gael García Bernal e a loira-fazendeira de Tilda Swinton) que, pouco a pouco, levam a um desfecho já esperado. É aí que o diretor procura repetir uma marca registrada sua: as conversas de referêcias pop e os diálogos repetidos ao longo de vários conversas – não só para fazer seus roteiros integrarem um mesmo universo, mas também para guiar o espectador pelo seu caminho e despistá-lo sobre alguma possível reviravolta – que talvez nunca venha.

Longe do vício por pólvora e sangue do cinema tradicional, o olhar de Jarmusch é absolutamente casual sobre cada assunto. A tensão inexiste, é diluída dentro do panorama geral; o que resta, como sempre, é o sentimento de desolação e tédio, clima de todos os seus filmes. Tudo o que temos a fazer é acompanhar o lento desenrolar da missão (um serviço de praxe) e os encontros com a garota nua, Paz de la Huerta – em um quarto de hotel que é o contra cromático do filme; Jarmusch não procura transmitir sensualidade, mas suavidade no encontro do homem com a garota. Uma fuga para o clima seco, onde nada acontece, que reina nas tomadas externas.

Mas não espere que o diretor vá além disso: tão radical ou mais que Aki Kaurismäki, por exemplo, as histórias de Jarmusch não crescem para lugar nenhum. Como sentar numa cafeteria, tomar uma xícara e fumar cigarros, seus filmes registram o mundo dos anônimos, que chegam, ocupam o espaço por algum tempo e se vão, como o próprio cinema e a música. Como a própria existência humana, talvez, vá saber.

O diretor não escolhe os vagabundos, excluídos e marginais por acaso: aqueles que passam despercebidos contam as maiores crônicas em seus filmes. Filme após filme, parece levantar a bandeira do não-significado; se cada plano para Eisenstein era um ideograma que no conjunto com outros planos deveria significar algo, Jarmusch tenta fazer com que sejam signos abertos. Ele volta o olhar para os derrotados por ver a liberdade do modelo tradicional neles, o que já leva seus filmes para além do mero interesse sociológico.

O discurso do cinema jarmuschiano é o do contexto da fuga da repressão; da busca pela liberdade; da libertação dos significados. O senso comum aprisiona, e o olhar indiferente com ritmo devagar quase parando, interessado não na ação em si, mas no painel geral de historietas que compõem um mundo pouco lembrado. Sair do nada e ir para nada é uma constante das suas obras – Jarmusch parece acreditar que nada é determinado e cada novo passo, cada novo plano, é um tiro no escuro. Por isso, o presente não importa tanto quanto o passado ou quanto o futuro. Por mais que já tenha variado na fórmula, o assunto continuou o mesmo: a falta de rumo e a busca pelo mesmo.

Os Limites do Controle pode não ser o melhor de seus filmes, mas é um filme consistente feito com a marca indelével de um exercício estético constantemente treinado e refinado ao longo de três décadas que acabaram por constituir uma das carreiras mais autenticamente dissidentes do cinema contemporâneo. Livre do modo de produção tradicional e da linguagem predominante, é o real cinema indie, de “independente”, por natureza.

4/5

Ficha técnica: Os Limites do Controle (The Limits of Control) – Estados Unidos, Espanha, Japão, 2009. Dir.: Jim Jarmusch. Elenco: John Hurt, Gael García Bernal, Tilda Swinton, Jean-François Stévenin, Bill Murray, Alex Descas, Luis Tosar, Isaach De Bankolé, Paz de la Huerta, Óscar Jaenada

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