– por Michael Barbosa

Banksy é um fenômeno, e, caramba, tome isso no sentido que bem entender porque a afirmação continuará válida. É um fenômeno por ser um dos maiores nomes das artes no século XXI, por ser uma síntese de um momento e contexto, por ser ousado e comtemporâneo, por falar de política, ambientalismo e coisas-século-vinte-e-um do tipo e por as vezes não falar de nada tão relevante e ainda se mostrar interessante. É grafiteiro, desenhista e escultor. É pop e cool, em essência. É – e lá vou eu fazer uma comparação sem saber muito bem até que ponto faz algum sentido – o Andy Warholl repaginado. E se, até agora, Banksy não produziu e alavancou nenhuma banda sensacional tipo The Velvet Underground dá pra dizer que essa primeira incursão do misterioso artista na sétima arte é certamente mais relevante (sim, é essa a palavra que quero usar) que todos os experimentalismos ocos de Warholl, do nível de filmar um cara recebendo um boquete.

Bem, a ideia não é sustentar a coisa nessa comparação inconsistente, a questão é que o artista extrapola a arte em si, ele é  uma celebridade, ou ao menos uma figura pública, parte do revés da coisa toda de ser um artista famoso é a fama, os jantares de graça, as festas e a coisa toda sobre comer de graça e sexo fácil. E Banksy abriu mão disso tudo, é uma figura anônima, um rosto na multidão, um cidadão comum de Bristol, Inglaterra.  Há quem diga que ele sequer existe, que Banksy é um “crew”, um grupo de caras que trabalham em conjunto. E isso torna tudo ainda mais interessante. Mais e mais.

Feita a introdução e babação de ovo toda (entender Exit… passa por entender Banksy, tenhamos isso em mente) vamos ao premiado documentário em questão. Essa é a história de um francês dono de uma loja de roupas vintage e compulsivo por filmar (Thierry Guetta) que acaba catapultado diretamente para o meio da street art e as suas filmagens, outrora ordinárias imagens cotidianas, passam a ser valiosos registros de toda uma legião de artistas de rua, que vivem à margem da legalidade e na periferia do circuito e das revistas de arte, correndo da polícia, escondendo o rosto, vivendo esse sonho bonito de viver pela arte e ser underground. A partir desse momento, aquele excêntrico francês se torna quase um messias com uma câmera, o homem que quase sem querer estava eternizando momentos muito importantes de caras muito bons.

E ao aproveitar isso tudo Banksy presta sua homenagem à street art, e essa é a primeira razão desse ser um documentário sensacional, o retrato filmado de toda uma cena artística. Pois Guetta filmava só pela compulsão mesmo, jogava as fitas em caixas e deixava lá, sem etiquetas para dar uma organizada, sem assisti-las ou tampouco se dar ao trabalho de realizar algum tipo de edição com o material. Quando o francesinho pentelho se torna um peso Banksy o incube de transformar todo aquele material muito legal em um filme, um registro de fato dessa história de fazer arte no muro alheio. O resultado é um aborto de nome Life Remot Control, vendo que tudo isso foi uma ideia idiota e que o trabalho de Guetta são 75 transloucados minutos Banksy sugere agora que Guetta produza sua arte, tanto tempo vendo caras trabalhando deve ter resultado em algo. Agora que a coisa fica boa.

A essa altura já está claro o bastante o tanto que Guetta é prosaico, sem noção, irreponsável, pouco talentoso e tem pouquíssima auto-crítica, mas, agora como o artista Mister Brainwash, ele se mostra mais maroto do que poderíamos prever, vende tudo que tem e contrata gente a beça; paga outros artistas para produzirem a sua “arte”, faz “arte” de photoshop, faz “arte” a atacado, estúpido que é quebra a perna e fica sentado numa cadeira motorizada gritando e dando ordens. E a gente vê, ali na tela, que tudo isso está muito errado. Mas vocês conhecem a palavra mágica, não é? Hype. Com muito disso MBW fatura na sua primeira exposição na casa de um milhão de dólares, recebe críticas das mais positivas e se torna o coqueluche na casa de senhoras colecionadoras moderninhas.

E quando retrata isso tudo Banksy, consequentemente, faz uma ácida crítica. Joga tudo de uma vez. O tanto que é tênue a linha que separa autoral de pré-fabricado; a facilidade com que se pode enganar uma séria de “especializados”; o senso crítico do próprio público. Ou de forma mais sintetizada: todo o conceito moderno de arte. E no meio disso acabamos por perceber que o que até agora há pouco era uma homenagem a grafiteiros se tornou um ataque de enormes proporções a toda a forma como uma indústria inteira se entende. Como pode um palhaço, um sujeito caricato como aquele, enganar tanta gente? O Senhor Lavagem Cerebral é a própria metáfora de onde os tortuosos caminhos da arte nos levaram.

O que fica é um misto de fascínio e estranheza. Fascinado com o filme todo e em como um cara saído de algo aparentemente tão distante do cinema mostra tanto domínio da linguagem documental e da narrativa no seu primeiro trabalho e com aquela pulga atrás da orelha de se isso tudo é verídico. Não deve fazer muita diferença. Banksy, agora cineasta, berrou em alto e bom som sua mensagem, cagou em cima da indústria e saiu dando risada e mais consagrado do que nunca.

5/5

Ficha Técnica: Exit Through The Gift Shop (Idem) – EUA/Inglaterra, 2010. Dir. Banksy. Elenco: Banksy, Thierry Guetta, Rhys Ifans, Space Invader

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