por Bernardo Brum

Depois dos elencos estrelares,  do prêmio mais pomposo do mundo cinematográfico, da cultuada comédia O Grande Lebowski, do rebuliço causado a cada filme lançado onde dividem o público entre fãs apaixonados por seu trabalho e críticos ferrenhos pela dramaturgia anacrônica e senso de humor pouco comum de suas obras, pouco se lembra de quem eram os Coen nos anos noventa – promessas de futuras potências, diretores de idéias independentes que poderiam ser autoras e ainda assim terem retorno e público cativo apenas com a força de seus nomes.

Fargo foi o filme que projetou os Coen para o primeiro escalão do cinema americano e fechou o ciclo da sua fase de autores emergentes responsáveis  por grandes obras do circuito alternativo como Barton Fink e Ajuste Final e comédias amalucadas como Arizona Nunca Mais.

Vendido erroneamente como uma comédia de erros, Fargo é bem mais do que isso, bem mais do que apenas as piadas esquisitas dos irmãos diretores. Como já foi dito, Fargo é um policial à luz do dia. Em cores pastéis, plácidas e tranqüilas, onde os diretores jogam torrentes de sangue, carne e podridão humana para compôr um panorama incômodo à primeira vista.

O “noir branco” dos Coen, a investigação de um trambique no meio da neve onde todos falam com um sotaque pouco usual, é o lugar para os diretores sacanearem o estereótipo do cidadão do meio-oeste americano – o indivíduo conformado, medíocre, passivo-agressivo e que tem resistência a mudanças.

A policial grávida, Marge, que faz as vezes de um Sam Spade e Philip Marlowe, terá de descobrir um universo bizarro que ela própria desconhecia. Enfrentará, pela primeira vez, o mundo que o xerife Ed Tom Bell, de Onde os Fracos não tem Vez teve que aprender a encarar. Um mundo sem escrúpulos, onde a violência não tem limite e as vítimas são despachadas e ocultadas de modos bárbaros. O crime, a violência e a selvageria sempre estão um passo à frente.

Esse esforço constante de contraste e confrontação, entre ambientes, personagens e ação fazem de Fargo um filme bruto, agressivo e com uma carga melancólica latente. As lágrimas derramadas pela policial grávida devido aos atos brutais de um assaltante explicam bem isso, num exercício simples de montagem evocando um questionamento óbvio – não é um tanto cruel colocar filhos em um mundo que não os tratará bem nem terá piedade? Que motivação dar a eles?

Típico mal-estar artístico dos anos noventa – do arrastado e pantanoso grunge à violência de estética popular dos diretores indies em ascensão, todos eles compartilhavam um tema em comum, bem além da busca de individualidade e liberdade que acompanhava as gerações anteriores – a questão era o que iriam fazer agora, numa maré de brutalidade e hedonismo trazido pelo clima de “fim do milênio”, do mundo como conhecemos chegando ao seu final para que possa necessariamente surgir outro – e que não sabemos se vai ser para a melhor ou para a pior.

Os indivíduos que os Coen constroem – esses personagens patéticos, desesperados e sem nada melhor para fazer – são uma síntese perfeita do que muitos criticam na sociedade moderna: medo, derrota e incompreensão a cada esquina. Onze anos depois de Fargo, haveria Onde os Fracos não Tem Vez – um filme tão cheio de dúvidas quanto seu predecessor.

Observando o tempo – sejam Hollywood nos anos 30 de Barton Fink, seja o velho Oeste de Bravura Indômita, o interior escravista de E aí meu Irmão, Cadê Você, entre todos os outros clássicos ambientes sobre os quais os diretores adoram lançar seus olhares peculiares – alcançaram um cinema  que toca sempre na mesma nota incômoda e triste, apesar da constante e incrível metamorfose que suas obras estão sempre sofrendo. A violência cresce. As sociedades, aguentam. O homem comum não entende. Os Coen observam o hostil vazio – e dali tiram todas as angústias para transformar em filme. Tanto quanto nós, eles não sabem o que viemos fazer nesse mundo – mas Fargo, como todos os outros, atestam que bem que eles gostariam de saber.

4/5

Ficha técnica: Fargo – EUA, 1996. Dir: Joel e Ethan Coen. Elenco: William H. Macy, Frances McDormand, Steve Buscemi, Bruce Campbell, John Carroll Lynch, Peter Stormare, Warren Keith, Gary Houston, Steve Park