– por Michael Barbosa

O Discurso do Rei é um típico expoente de um cinema que cada vez mais me parece anacrônico: aquele de um apuro e cuidado técnico absurdo, extremamente preocupado com a direção de arte, com os figurinos, com a reconstituição de época intocável, mas aprisionados a noções estritamente classicistas, incapazes de ousar, de “sair da casinha”. Algo que parecia grandioso na década de 40 e que hoje só sugere preguiça ou medo. De forma alguma estou reclamando da produção grandiosa de The King’s Speech, não é isso, só me é incômodo um filme que se restrinja a contar uma história de pouquíssimas nuances e não faça esforço nenhum para, através da linguagem e da narrativa, fazer as coisas parecerem mais interessantes ou, nem que seja “na marra” (como Clint Eastwood fez muito bem várias vezes), pelo menos emocionar.

De todo é estranho – admito – criticar um filme por ser correto, mas é de uma falta de arrojo quase constrangedor a estrutura fílmica de O Discurso do Rei, é difícil até mesmo pensar no filme como o trabalho artístico do diretor, a impressão mais óbvia (e acredito que certa) é que se trata de algo pensado passo a passo por algum produtor naquela vontade de faturar alguns oscars, e que, sendo assim, se viu tendo que trabalhar com uma série portos seguros. A própria escolha de Tom Hooper, um diretor novato, apenas no seu terceiro longa-metragem para o cinema e sem “Nome” parece calculada a fim de ter na direção um cara que não possa acabar comprometendo o projeto com alguma peripécia autoral e que nem pense em fugir àquilo que está escrito no roteiro.

Tudo isso não vai tirar do filme os méritos que ele merece. A escolha do elenco é absolutamente fantástica, Colin Firth interpreta com maestria o Duque de York e depois Rei da Inglaterra George IV que tem como maior drama da sua vida a gagueira e vê sua esperança final num nada ortodoxo médico de nome Lionel Logue (Geoffrey Rush) e tem também a sempre incrível Helena Bonhan Carter, agora mais contida, que não decepciona como a mulher do rei gago e depois Rainha Consorte, e se essas atuações são tão boas de certo Tom Hooper tem seus merecimentos nisso e eu não vou omiti-los, de forma alguma, já está registrado.

Mas é só isso mesmo, a linear e por vezes monótona história de um nobre tratando seu problema não tão incrível assim com ser gago, com direito a uma sequência sobre superação digna de Rocky: Um Lutador (takes rápidos, diferentes exercícios, musiquinha e tudo mais). São duas horas de reviravoltas políticas e familiares pouco capazes de prender a atenção tudo para levar ao, declarado desde o princípio fim, onde Albert vira Rei. A história de superação e o background de momento pré Segunda Grande Guerra são bons, mas é um filme de personagens e suas motivações e porquês são muito mal trabalhados. A certa altura se ameaça mostrar como e por que Lionel Logue virou aquele peculiar sujeito que resolve problemas com a fala ao mostrar uma audição sua para um papel no teatro, mas só saber que ele é um ator fracassado e depois receber uma didática explicação em uma discussão já lá pro fim é pouco demais para dar complexidade a um sujeito. E tampouco saber que os pais de Alfred eram linha dura parece um jeito bom de tentar explicar o fato de Alfred ser gago e chiliquento. Além de tudo isso, o clímax se dá em um discurso do agora rei: ele, o microfone e uns nove minutos de fala, não funciona.

No fim é isso, aquele filme que está mais próximo da Era de Ouro do que do século XXI (e sem o encanto de quando isso era contemporâneo) e lá por Hollywood, talvez por saudosismo, ou quem sabe dificuldade de lidar com o novo (o moderníssimo Scott Pilgrim Contra o Mundo ter sido ignorado nas premiações e massacrado por parte da crítica americana tradicional é algo que vem bem a calhar lembrar), eles ainda gostam bastante desse jeito tão estreito de se contar histórias, a mim não convence, não mais. Por trás da produção grandiosa, das atuações competentes e do recorte histórico sobra muito pouco em O Discurso do Rei.

3/5

Ficha Técnica: O Discurso do Rei (The King’s Speech) – Inglaterra, 2010. Dir: Tom Hooper. Elenco: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Michael Gambon.