– por Guilherme Bakunin

Na Austrália, mais ou menos seis pessoas desmaiaram ao assistir 127 Horas. Nos Estados Unidos e em alguns outros lugares do mundo, uma galerinha impressionável também acabou indo parar nos hospitais. Sinceros parabéns a Danny Boyle, um dos grandes abortos dessa hollywood academia da última década, que conseguiu retirar do pública reações tão viscerais a ponto de não deixar que seu filme tivesse um alcance apenas emocional/psicológico na plateia. Não, 127 Horas, aparentemente e pruma grande parte do público, atinge o espectador fisicamente, incita a claustrofobia e nojo em alguns momentos enquanto o personagem principal, Aron, interpretado por James Franco, está preso à uma rocha no fundo de um canyon de Utah, Estados Unidos.

O filme transita entre a experiência meditativa de autodescoberta do protagonista e o suspense ao narrar a história de Aron Ralston, o engenheiro que ganhou fama ao cortar o próprio braço para se salvar, em 2003. Um homem solitário que é forçado através de forças misteriosas que podem ou não existir a se conhecer e a se transgredir é um palco armado prum grande trabalho e nas mãos de uma equipe inteligente certamente daria resultado a uma obra emocionante e life changing. Infelizmente o roteiro saiu mesmas mãos responsáveis pelo crime  humanitário que foi Quem Quer Ser Um Milionário?, e portanto, transgredir a mente e os sentimentos para atingir reações físicas viscerais (ainda que as reações sejam causadas pela  percepção gerada pela mente, que é física, mas enfim, vocês entendem eu acho) é o máximo que eu consigo ir para elogiar 127 Horas.

O filme é todo intercortado por cenas terríveis e mal colocadas, que vão desde anúncios de relógio e Gatorate até câmeras em canudinhos e sons de talk show. Quer dizer, achei que a gente tava falando sobre transgressão pessoal, I Me Mine, Índia, Buda, religiões oritentais dos anos setenta, vida moderna inócua, auto reflexão e etc aqui. Ao invés disso sou atingido por setas comerciais ofensivas e uma câmera documental preguiçosa e simplesmente errada. Porque, vamos refletir. O filme fala de um cara que está isolado. Toda a condição do filme parte da ideia que Aron está sozinho e o gênio do Danny Boyle transforma isso num documentário. Percebam a ironia do negócio. Percebam a falta de tato. Agora imaginem Tarkovsky com um negócio dessa nas mãos. Overthinking, eu sei, mas imaginem então a Debra Granik ou o Andrew Stanton, então, pra ficarmos na galera de agora. Mas não, o filme é entregue nas mãos do cara que fez Quem Quer Ser Um Milionário?, que é tão ruim a ponto de ser indecifravelmente ruim. É como falar mal de um pedaço de bosta (sic) no meio da sua sala de estar. É tão errado, é tão absurdo, é tão fedido que você mal sabe por onde começar. É mais ou menos assim que eu me sinto em relação ao Boyle, eu quero só sair logo da sala pra esquecer.

127 Horas não me parece ser tão horrível, mas é incômodo por toda a atmosfera que tenta criar, por toda a pretensão não atingida. É um filme sobre redenção, mas a gente não conhece o cara que está se redimindo, então a gente nem ao menos sabe do  que ele tá se rendendo. Ele cortou o próprio braço, demais, e essa cena é muito boa, e a forma explícita como ela foi feita, o som e a maquiagem e o cgi e o James Franco atuando em conjunto ali. É harmônico, é preciso, é estático. É plano e contraplano, é ação e reação, é cinema. Mas Boyle não age assim o filme todo, e o cara fez Transpotting, que eu só assisti uma vez em 2004 e então eu nem lembro se é bom ou não, mas eu acho que é, acho que é tão bom quanto a amputação de 127 Horas. Mas então o Boyle sabe dirigir filmes e não dirige porque? Então, não sei responder. Ele pode tentar andar mais do que suas pernas conseguem, ele pode simplesmente querer fazer filmes ruins mesmo, mas fica aí a ideia jogada no ar, a dúvida, a perplexidade. Eu sou o Jack Nicholson no final de Chinatown, eu to diante de algo horrível, speechless.

1/5

Ficha Técnica: 127 Horas (127 Hours) – EUA, 2010. Dir: Danny Boyle. Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Koleman Stinger, Peter Joshua Hull.

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