– por Michael Barbosa

Com muita criatividade, trabalho duro e roteiros pra lá de inspirados a Pixar conseguiu escrever seu nome na história do cinema nos últimos quinze anos (e efetivamente ela o fez logo no seu primeiro longa – Toy Story, 1995 – ele por si só já histórico o bastante ao revolucionar toda a técnica e o processo criativo das animações). O que se sucedeu foi uma série de grandes filmes, visuais arrebatadores e sucessos comerciais de enormes proporções, veio a junção a Disney, um mega império, e, em 2010, Toy Story 3, uma síntese dos porquês e de como a Pixar se tornou um dos estúdios mais importantes de toda a indústria e uma quase unanimidade de público e crítica em tão pouco tempo e com uma média inferior a um longa metragem por ano.

Desde a primeira animação em longa da história, Branca de Neve e Os Sete Anões, dos estúdios de Walt Disney, se tornou fato quase inquestionável a capacidade das animações enquanto obra audiovisual, que podia sim ser tão emocionantes e artístico quanto qualquer filme em live-action, mas com seus contos de fadas e filmes, puritanos por muitas vezes, a Disney não conseguiu romper de maneira eficaz a velha história do “é coisa de criança”. Bem, os conservadores – ou talvez a essa altura já reacionários – continuam aí, a Pixar não acabou com todos, mas mudou o panorama, bastante. O “é coisa de criança” deu lugar ao “para adultos e crianças”. Não que os clássicos da Disney não fossem capaz de atingir adultos (porque eram sim), não que Planeta Fantástico, A Revolução dos Bichos e tantas outras animações não tivessem fugido do estereótipo bem antes, mas é que a Pixar maximizou, levando desenhos animadas a um novo nível de maturidade no discurso, fazendo do infantil um produto pleno para todos os públicos.

Tou Story 3 em momento algum deixa de ser um filme infantil em essência, porém é o ápice da capacidade dos roteiristas da Pixar de encaixar com extrema fluência piadas e questionamentos de teor adulto. Acaba por se tornar uma obra de duas facetas, que mostra o lado que convém a cada espectador com muita naturalidade, é quase que uma escolha instintiva enxergar a história de fantasia e aventura dos brinquedos falantes ou uma refinada e espirituosa comédia sobre amizade com toques sacanas geniais – ou as brincadeiras com a meterossexualidade do Ken ficam aquém disso?

O resultado é que todos aproveitam o melhor dos dois lados, pendendo para a sua faixa etária interior. O próprio ponto de partida dessa terceira parte da saga de Wood, Buzz e companhia mostra certa ousadia, é o fim inevitável, anunciado desde o primeiro filme que enfim chegou: Andy cresceu e não quer mais saber dos brinquedos, vai para faculdade. Nos jogando em meio a uma odisséia existencialista física e psicológica de brinquedos, Toy Story 3 consegue mexer com as mais diversas sensações, que começa pela natural nostalgia por rever aqueles personagens e vai passar pela alegria, empolgação e uma angústia muito forte quando os vemos rumo a morte em uma cena bastante impressionante por fazer você se contorcer na poltrona por mais que uma redenção no último instante seja óbvia e, quem sabe, cinema seja em boa parte sobre isso, fazer acreditar, fazer do clichê tensão, do óbvio êxtase. E nisso Lee Unkrick e a trupe da Pixar se mostram muito bem sucedidos e o reconhecimento veio, mais de um bilhão de dólares arrecadado em todo mundo, quinta maior bilheteria de todos os tempos em números totais, entre os melhores do ano nas mais variadas publicações e cinco indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. Público e crítica, mais uma vez.

E no fim era tudo sobre a união, sobre a amizade enquanto alento para o sujeito nos momentos mais difíceis e sobre a obstinação na posição de força propulsora para superar desafios, o Conta Comigo – com um upgrade – dessa geração.

5/5

Ficha Técnica: Toy Story 3 (Idém) – EUA, 2010. Dir: Lee Unkrich. Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Estelle Harris, John Morris, Jodi Benson, Laurie Metcalf, Blake Clark, Whoopi Goldberg