por Bernardo Brum

Antes das sandices megalômanas geniais de Werner Herzog, quem ficou famoso (e controverso) por filmes que envolviam peripécias e despesas técnicas absurdas (ao menos para sua época), era John Huston. Uma Aventura na África é um dos grandes representantes desse cinema raçudo feito na base da gana e do suor de diretor, equipe e elenco, em plena era de ouro de Hollywood.

Saíam os estúdios e entrava em cena o continente africano, selvagem e turbulento. Os elegantes Humphrey Bogart e Katharine Hepburn abandonariam seus clássicos arquétipos limpos e charmosos para suarem, transpirarem, se sujarem de graxa e lama numa daquelas clássicas histórias de obstinação que Huston sabia retratar tão bem.

As imagens cristalizadas da dureza charmosa de Bogey como os detetives noir  Sam Spade e Philip Marlowe  e da graciosidade elegante de Kate como a socialite Tracy Lord em Núpcias de Um Escândalo caem por terra em questão de segundos: os já veteranos atores encarnam um navegante grosseiro e beberrão e uma coroa irritante cheia de frescuras e moralismos que fogem da ocupação nazista no continente através do barco do pinguço, o African Queen, rio abaixo. No meio tempo, surge a paixão e um ousado plano de demolição de um barco dos chucrutes.

É redundante comentar do talento que Huston dispunha para filmar os grandes filmes de aventura do cinema. A subversão ao mostrar dois atores famosos como dois desajustados tanto em matéria de lugar quanto de comportamento logo desagua em situações cada vez mais tensas e cômicas – muitas vezes, os dois ao mesmo tempo. O timing que o diretor tinha para andar na corda bamba entre o engraçado e o trágico é o que faz toda a diferença do mundo – em meio às discussões sobre bebedeira, natureza humana e costumes, os dois têm de enfrentar mosquitos, correntezas, pântanos  e navios quebrados, tudo em nome de ficar vivo e tentar fazer alguma coisa pelo mundo.

Já não bastasse a relação entre o casal principal ser nitroglicerina pura, o excêntrico Huston faz um filme com uma verve bem mais realista e verossímil que a maioria esmagadora dos filmes feitos à época. O olhar não era exatamente de um forasteiro, mas sim de um aventureiro, levando o espectador consigo a um universo novo.

Uma Aventura na África puxou um barco através do pântano, literal e figurativamente. A ousadia, configurada em uma direção simples, mas forçuda e eficiente, valeu cada louro de fama adquirido pela obra: é um dos poucos filmes com a pecha de comercial que prestam atenção a detalhes impensados  ao tipo de público que se destinava. Huston, mais preocupado com a força desses pequenos fatores em cena do que fazê-los parecer objetos de folhetim, faz um filme que ainda hoje carrega força dramática que prossegue interessante até seu final.

Não é um filme despretensioso, mas a sua força reside na história nua e crua e na simplicidade dramatúrgica e no impacto de imagens realistas acontecendo a duas figuras emblemáticas do cinema mais famoso do mundo. Qualquer arremedo ou complemento seria desviar a atenção de um filme tão direto assim. Não há muita invenção, mas no lugar disso há coragem e culhões de fazer um filme tão diferente e ainda assim cravá-lo como um dos grandes clássicos estadunidenses  desde sempre. Simples, bom e funcional como cerveja acompanhada de amendoim.

4/5

Ficha técnica: Uma Aventura na África (The African Queen) – Estados Unidos/Reino Unido, 1951. Dir.: John Huston. Elenco: Peter Bull, Theodore Bikel, Humphrey Bogart, Katharine Hepburn, Robert Morley, Walter Gotell

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