– por Guilherme Bakunin

É interessante você pegar pegar Gosto de Sangue e Arizona Nunca Mais, colocar os dois frente a frente e depois olhar pra além do horizonte de Joel e Ethan Coen em 1987. Porque são dois filmes extremamente polarizados: Gosto de Sangue, neonoir coeso, extremamente sério (não num sentido tarkovskiano, por exemplo, mas relativo aos próprios Coens) e Arizona Nunca Mais extremamente cômico, até bobo de vez enquanto.

A introdução as personagens é feita rapidamente numa cena de mais ou menos oito minutos, com narração do própro protagonista HI. Nicolas Cage interpreta H. I. McDunnough, um assaltante de segunda categoria que se apaixona e se casa com Ed (Holly Hunter), uma policial local. Depois de algum tempo morando juntos em um trailer, Hi e Ed descobrem que eles não podem ter um filho. Arrasada, Ed bola um plano para sequestrar um dos cinco bebês de Nathan Arizona, um comerciante de móveis local.

Arizona Nunca Mais ainda faz parte dos anos 80 na carreira dos dois diretores, onde seus trabalhos não alternavam entre o dramático e o cômico de forma tão sutil, com uma comédia meio errada, meio rasgada mesmo. Dá pra ver, por exemplo, quando o casal de amigos interpretados por Frances McDormand e Sam McMurray visitam a casa de Hi e Ed que existem umas gags interessantes que ficam bem a margem do verossímil ali, com aquelas crianças terríveis e diabólicas, aquele “peido” escrito na parede, transformando-se num emblema indecifrável, etc. Mas nos diálogos o negócio ainda não fica caricato o bastante. Pra quem não conhece os filmes dos Coen, talvez funcione. Pra mim, não.

Pois é, não funciona tanto quando comédia, mas é um puta filme de aventura. Vai trabalhando com esses personagens esquisitos como se não quisesse desenvolver nada, e acaba trabalhando na dinâmica da família, daquela que tá nascendo agora, casal noivo e inexperiente, até que o filme entrega a eles um pouco de maturidade pra resistir ao primeiro problema (a esterilidade da personagem da Holly Hunter) pra continuar em frente e sei lá. Tem a figura do motoqueiro, personagem duplo. O motoqueiro também é o HI. É a parte de HI que ele tem que exterminar de si mesmo. É a vida bandida, ou é a reificação dos problemas do casal, ou é a imaturidade. E vai ver são todas as coisas encarnadas ali naquela ameaça física e extremamente real. Uma ameaça que diz respeito ao casal, sim, mas principalmente ao HI, que como pai daquela nova família, vivendo aquela nova vida, tem que se olhar no espelho e falar “é isso aí, a partir de agora mudou”.

É uma aventura introspectiva, se vocês me entendem. As coisas funcionam no exterior principalmente pra fazer o espectador olhar pro interior daqueles personagens. O roubo de um dos bebês do Arizona, por exemplo, aquela coisa de “uns têm tanto e outros têm tão pouco” é um questionamento filosófico possível, mas porra, chegar e roubar um bebê é eticamente errado. Imaturidade do casal, despreparo desde o começo. E o título original, Criando Arizona (porque no Brasil o filme se chama Arizona Nunca Mais é algo que eu não entendi até hoje) é quase uma ironia. Porque o Nathan Jr. não chega a ser criado, a história se passa em no máximo alguns meses, mas quem cresce mesmo são HI e Ed. É quase como se o bebê, através de todas as experiências que ele proporcionou, tivesse educado o casal.

Terminando o filme tem a sequência do sonho do Nicolas Cage. O povo costuma não gostar, chama de piegas. Eu já falei aqui antes, no texto sobre Um Mundo Perfeito que a gente que gosta um pouco mais de cinema (no sentido de que a gente não vê apenas os filmes que passam no shopping, deixando claro que não existe nenhuma autoindulgência intelectual atuando aqui) costuma torcer o nariz pra quando o melodrama é acentuado demais. Uma má criação, certamente. Alguns filmes, e o Clint Eastwood é perito nisso, trabalham intensamente com o drama, buscando transferir a emoção do personagem ao espectador. Quando não consegue, é pieguice descarada mesmo. Mas quem viu o filme e acompanhou o crescimento –existencial- do HI TEM que se sentir tocado por esse sonho. É inverossímil porque a gente não costuma acreditar no milagre de fertilização em mulheres estéreis, mas é emocionante, é lindo, casal tendo filhos e envelhecendo juntos, criando netinhos e etc. Fofo demais. A sequência final de Arizona Nunca Mais inspirou aquela da A Origem e A Última Noite (de Spike Lee).

3/5

Ficha Técnica: Arizona Nunca Mais (Raising Arizona) – EUA, 1987. Dir. Joel Coen. Elenco: Nicolas Cage, Holly Hunter, John Goodmann, Trey Wilson, William Forsythe, Sam McMurray, Frances McDormand.

Anúncios