-por Guilherme Bakunin

Um dono de um bar no Texas (Ray, interpretado por John Getz) descobre que sua mulher Abby (primeiro papel de Frances McDormand no cinema) está tendo um caso com um de seus empregados, Marty. Angustiado, Ray contrata um detetive caipira para matar sua esposa e seu ex-empregado. Gosto de Sangue é o debut de Joel Coen e, portanto, representa uma espécia de cinema que não é tão característica, através de uma abordagem séria e romântica em um noir (ao contrário de Fargo e O Homem que Não Estava Lá, por exemplo), ainda que seja, digamos, simbolicamente confuso e preciso.

A história segue a linha tradicional dos roteiros de Joel e Ethan Coen onde acontecimentos desencadeiam-se por consequência de pequenas atitudes que se tornam progressivamente mais catastróficas. Engano por engano, ganância por ganância, ninguém em Gosto de Sangue tem certeza do que está acontecendo. E com a meia história que lhes é confiada, os personagens tentam fazer o que podem para se livrarem das frias. Abby, por exemplo, não chega a descobrir se Ray realmente morreu ou não, uma morte que acontece por volta dos 30 minutos de filme e gera consequências até o minuto final.

Essa ignorância seria revisitada em outros filmes, desde uma abordagem cômica rasgada – Queime Depois de Ler – até uma graça mais contida – Onde os Fracos Não Têm Vez. Aqui, é simplesmente um oceano de tragédias transfiguradas na presença do detetive particular Loren, o que de mais onisciênte existe no filme. Não seria ir longe demais comparar Loren ao personagem de Xavier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez. Chigurh e Loren compartilham de uma existencia surreal, funcionando muito mais como elemento simbólico do tema do que como humanos de fato. Loren não dorme, não come, não caga, ele investiga, engana, rouba e mata pessoas, sem nenhum senso de moral (a moral é humana).

No título original, Blood Simple, os Coens fazem referência a um romance chamado Red Haverst de Dashiell Hammett (que, entre outras coisas, escreveu os livros que inspiraram nada menos que Relíquia Macabra e Ajuste Final, este também dos Coens) onde o termo é usado para descrever o estado de terror e suspeita psicológicos em que as pessoas ficam depois de submetidas a situações prolongadas de violência. A desconfiança de Abby de que Marty tenha assassinado Ray, e a certeza de Marty de que Abby cometeu tal assassinato são exemplos de como esse caos mental se instaura no filme de Joel Coen.

Por fim, vale comentar os dez minutos finais de filme, uma explosão de emoções não muito fácil de encontrar. Os elementos que compõe esse desfecho formam, na minha opinião, a quintessência daquilo que se entende por cinema noir. Não falo aqui de femme fatales ou de personagens solitários no pós-guerra (essas característias psico-individuais fazem parte do desenvolvimento de uma história, não necessariamente de uma estética), mas do desencadeiamento da violência através de um uso espetacular de luz e sombra; veja Abby chegando ao seu apartamento: Marty está na sala principal, no escuro, de frente à janela. Abby, com medo (a suspeita do termo blood simple está latente aqui), acende a luz, Marty em seguida apaga. Novamente, Abby acende a luz, com temor mais intenso e segundos depois Marty é assassinado. Abby corre dos tiros e queima a lâmpada extinguindo a luz. Desafiando os signos proto-medievais de representação, a luz se transforma em morte, que se transforma em Loren que repentinamente entra no apartamento da moça e procura assassiná-la. Abby vai ao banheiro, está com o detetive em seu encalço, e através da janela chega ao quarto do lado e consegue imobilizar Loren. O homem então começa a disparar contra a parede. Do outro quarto, Abby está imersa numa escuridão que começa a ser quebrada com os disparos de Loren que deixam rastros permanentes de luz no cômodo. A morte novamente se aproxima. O simbolismo no desfecho é tanto que Abby derrota o detetive, mas sem jamais ver seu rosto. Não uma sequência de perseguição-assassinato natural, tá mais pra como se ela derrotasse uma ideia que surgiu de si mesma (ela acreditava ser o ex-esposo, sedento por se vingar na traição), alguma ameaça incorpórea que represenasse o perigo meio católico (criação dos Coens) de prestação de contas e etc.

4/5

Ficha técnica: Gosto de Sangue (Blood Simple) – EUA, 1984. Dir.: Joel  Coen. Elenco: John Getz, Frances McDormand, Dan Hedaya, M. Emmet Walsh, Samm-Art Williams.

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