– por Guilherme Bakunin

As crônicas de Charlie Dickens que formam a história de Oliver Twist são um dos trabalhos literários mais adaptados no cinema. Da última vez que contei preguiçosamente, eram mais de quinze filmes feitos entre 1912 e 2005. Se destacar em meio essa porrada de filmes certamente já vale algo. Oliver!, de 1968 foi dirigido por Carol Reed, um diretor iconoclasta que fez, entre outras coisas, O Ídolo Caído e O Terceiro Homem, certamente duas das mais incríveis histórias noir do cinema. Esse filme, contudo, tem a leveza das histórias de Dickens e claramente é dedicado a um público infantil.

Oliver Twist vive em um orfanato numa região provinciana da Inglaterra, mas consegue escapar para Londres, onde vai se envolver com dois perigosos bandidos que usam crianças para realizarem pequenos assaltos.

O filme é na verdade indiretamente adaptado do livro de Dickens. A influência direta é do espetáculo da Broadway. Sob a forma do musical, a história de Oliver é ainda mais romantizada, com contrastes gritantes entre a monocromática província de onde Oliver saiu, onde o número musical que melhor representa essa etapa é o Where Is Love e a superpopulacional Londres e sua Who Will Buy. Os números musicais também constituem o olhar de Carol Reed sobre a história de Dickens. Ao grande vilão Bill Sikes não é concedida a oportunidade de se expressar pelo canto; os heróis Oliver Twist e Nancy cantam, principalmente pra expressar as coisas que eles não conseguem de outra forma; Fagin é interessante: é certamente um vilão (guardadas as ressalvas ao maniqueísmo que Dickens certamente faz questão de desconstruir, mais sobre isso à frente), mas canta, porque pretende ser carísmático para as crianças. Fagin é a face amigável, por mais incrível que pareça, de Bill Sikes, o sistema do infortúnio social da periferia de Londres do século XIX.

A fábula de Dickens faz questão principalmente de mostrar heróis e vilões como um acaso do momento, o resultado de um jogo de sorte ou de azar. Para Oliver, inicialmente fracassou, pois ainda que não tenha cometido nenhum crime, certamente cometeria se a história seguisse o curso natural. Não que Oliver seja mau, pois não é, mas ele simplesmente não teve uma oportunidade de escolha. Depois, quando um inocente acaso entregou a Oliver a oportunidade de retornar à casa de sua família. De bandido a aristocrata, Oliver transitou por esses dois momentos não porque escolheu, mas porque essas duas coisas apenas aconteceram, e ele as recebeu passivamente.

Carol Reed enxerga muito bem esse épico social em Oliver!, colocando Arthur Dodger junto com Fagin caminhando em direção a aurora. Duas almas que, se não boas, pelo menos humanas, obrigados a se inseriram à margem de uma sociedade por culpa de um sistema de exclusão e segregação. E Oliver fica lá, naquele condomínio fechado de arquitetura modernista, branco e brilhante, e ensolarado e de roupas caras e rosas vermelhas.

3/5

Ficha técnica: Oliver! – Inglaterra, 1968. Dir.: Carol Reed. Elenco: Mark Lester, Ron Moody, Shani Wallis, Oliver Reed, Harry Secombe, Jack Wild, Hugh Griffith.

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