– por Guilherme Bakunin

Quando crianças, Tommy, Kate e Ruth viveram em uma espécie ídilica de colégio inglês chamado Hailsham. O colégio esconde uma verdade desoladora, que terá de ser processada pelos três jovens na medida em que eles crescem. O melodrama romântico baseado na novela de Kazuo Ishiguro repentinamente assume contornos sci-fi, na medida em que a verdade de Hailsham é friamente revelada por uma de suas professoras desertistas. Infelizmente, Mark Romanek não consegue se equilibrar entre o drama e a ficção científica, suprimindo as grandes possibilidades da história que tinha em mãos.

O viés existencial da história é infelizmente sufocado pelo melodrama excessivo. O diretor erra a mão ao se concentrar mais no triângulo amoroso adolescente e não tanto nas implicações filosóficas da manutenção de clones para servirem de reservatório de órgãos vitais, uma verdade dentro do filme. O filme está mais interessado em explorar o amor como característica vital da existência de qualquer pessoa, e essa viagem é extremamente interessante, mas uma visão diferenciada poderia transformar Não Me Abandone Jamais em algo muito maior.

De certa forma, o equívo da personagem de Keira Knightley é similar ao equívo de Mar Romanek: quando Kathy está olhando revistas pornográficas, Ruth supõe que ela estava explorando sua própria sexualidade. Kathy, na verdade, estava a procura de sua original. Na visão de Ruth, o acontecimento é sexual, quando na verdade é existencial. Os rumos tomados pela história denotam o mesmo erro.

Seja como for, na adolescência é quando os limites do triângulo amoroso são realmente ultrapassados, portanto é o pior exerto do filme. Ruth desafia Kathy abertamente, que para escapar da tortura que é ver Tommy e Ruth juntos, se torna assistente voluntária e, eventualmente perde contato com seus amigos. No descesso, Kathy é uma mulher que transmite sobriedade e aceitação. Conformou-se com a limitação da existência dos clones, e faz o que pode para aliviar a dor daqueles a quem ela é delegada para assistir. Ruth é amargurada com seu passado, e face a face com a morte, entrega esperança ao casal de amigos para que eles consigam o adiamento, isto é, alguns anos para aproveitarem a vida como casal antes de começarem a doação de órgãos. O adiamento é um mito, e de forma severa, a ex-diretora de Hashigam diz claramente a Tommy e Kathy que não há humanidade na vida deles.

Ao final do filme, Kathy parece discordar dessas palavras, ao encontrar a mesma finitude tanto na vida dos clones, quanto na vida daqueles a quem eles salvam. Esse paradoxo existencial que cria a interrogação do que nos torna homens, e de quais são os limites dessa nossa humanidade é explorado abertamente apenas nesses segundos finais. É um material subaproveitado, mas que ainda sim agrada, por ser conduzido numa atmosfera neutra e bucólica com uma fluidez narrativa de quem sabe fazer as coisas.

3/5

Ficha Técnica: Não Me Abandone Jamais (Never Let Me Go) – 2010, Inglaterra. Dir: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley, Izzy Meikle-Small, Charlie Rowe, Ella Purnell, Charlotte Rampling, Sally Hawkins, Kate Bowes Renna.

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