– por Mike Dias

“Quanto mais se olha menos se sabe”, esse é o único fato existente segundo o advogado Freddy Riedenschneider e, realmente, O Homem Que Não Estava Lá parece fazer essa máxima verdadeira a cada novo acontecimento na vida de Ed Crane (Billy Bob Thornton, em uma das melhores atuações da década). Esta é mais uma tragédia dos Irmãos Coen, um daqueles filmes onde uma ideia ruim desencadeia uma enorme série de infortúnios e desgraças, tudo isso tendo no centro da história um sujeito extremamente crível e fácil de acreditar na verossimilhança das suas atitudes por mais absurdos que os acontecimentos ao seu redor possam parecer – e isso pode incluir naves espaciais, matar um sujeito e ser condenado pelo assassinato de outro e coisas afins.

O fim dos anos quarenta, os ternos, a fumaça e os cigarros onipresentes, o preto e branco, o estilo mulher fatal de algumas e a falsa inocência de outras, as paranóias… Não há dúvidas, são os Coen revisitando o universo do film noir, só que agora de maneira muito mais profunda do que em Gosto de Sangue e tantos outros filmes da dupla, que já flertavam com o gênero. Realmente impressiona ver como se valendo de uma de capacidade técnica quase incomparável eles conseguem transformar virtuosismo em algo prático a serviço de um grande filme.

Ed Crane é o tal homem que não estava lá do título, um sujeito absolutamente prosaico, ordinário, comum e irrelevante até sobre uma óptica pessoal, um barbeiro que em um belo dia ouve uma proposta sobre lavagem à seco e, afim de conseguir dez mil dólares para começar o negócio, chantageia o chefe da esposa que ele desconfia de o trair. Esse é o seu primeiro erro, o pontapé do que viria a culminar em uns dois assassinatos, um suicídio, uma condenação à cadeira elétrica, um acidente de carro, uma viúva beirando com a insanidade (ou não), um bom sujeito entregue ao álcool e um advogado um pouco mais rico. É um legítimo arquétipo daquilo que os Coen fazem de melhor: narrar a tragédia, seja na releitura da clássica tragédia grega de Homero em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? ou em toda contemporaneidade de Queime Depois de Ler.

Um turbilhão de acontecimentos e pancadas na nuca é o que vemos Ed sofrer, o drama do sujeito que recebeu desgraças em troca de finalmente ousar, tentar um novo negócio, tentar fazer o bem à uma garota que ele apostava no talento. Tentando e tentando ele só se ferrou, mas o tempo todo mostrou certa reciprocidade com o jogo destino, sempre na busca de se recompor ao seu modo. Sim, há algo de muito melancólico e pessimista aqui, no discurso desanimador e principalmente na figura de Ed, que mesmo sendo um homem de meio século atrás não se tornou nada anacrônico. Como Riedenschneider disse em seu discurso de defesa, condená-lo seria condenar o homem moderno na sua mais pura representação e os Coen colocam assim em dúvida – para variar – a sociedade americana e questionam até que ponto Ed teve o direito de viver o sonho americano, a busca pelo usufruto do capitalismo e da felicidade, a liberdade. Preceitos tão defendidos pela Nação foram aqui pouco a pouco lhes tomados, pelo acaso, por extraterrestres ou pela lei. Mais até do que com Onde os Fracos Não Têm Vez, é com isso daqui que os Coen definitivamente escrevem seus nomes na história do cinema.

5/5

Ficha Técnica: O Homem Que Não Estava Lá (The Man Who Wasn’t There) – 2001, EUA. Dir: Joel e Ethan Coen. Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, Michael Badalucco, Ethan Coen, Joel Coen, Roger Deakins, James Gandolfini

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