por Bernardo Brum

A obsessão é um tema caro aos cineastas, principalmente no cinema moderno. Exemplos não faltam de longa ou recente data não faltam: Barry Lyndon, Fitzcarraldo, Blackout e Crash – Estranhos Prazeres, por mais diferentes que sejam, falam todos do mesmo tema – o homem atrás de uma causa impossível de alcançar. No cinema contemporâneo, poucos representam esse campo melhor que Paul Thomas Anderson, autor dos grandes Sangue Negro e Boogie Nights. Mas desde O Lutador,  Darren Aronofsky mostrou que podia muito bem ser uma nova potência tratando do assunto, após felizmente escapar do folhetim didático de Réquiem Para um Sonho e do hermetismo forçado de A Fonte da Vida. Cisne Negro é o resultado disso.

Filme-irmão de sua obra predecessora, o filme narra história de uma bailarina escolhida para ser a atriz principal na clássica peça O Lago dos Cisnes. Isso logo desemboca em uma espiral de obsessão para conseguir interpretar  dois papéis –  o benévolo e ingênuo Cisne Branco e o traçoeiro Cisne Negro. É a partir desse jogo de duplos que o filme é estabelecido: a reprimida Nina vai pouco a pouco abraçando tudo que a criação materna superprotetora a privou;  todos os seus instintos negados ao longo de seus quase trinta anos de vida dedicados exclusivamente ao balé progressivamente vêm à tona.

O surgimento de uma rival extrovertida e desinibida que encarna tudo o que Nina não é torna-se simbólico – a inveja, a competição e a paranóia fazem despertar nela a transgressão que ela deveria ter enfrentado pelo menos quinze anos antes. Ela não pode ser perfeita através da disciplina – sua vida dedicada exclusivamente à dança não a torna hábil para interpretar aquilo que sua “arquiinimiga” é. Ela não é o Cisne Negro, nem nunca viu nenhum lampejo dele – não transa, não bebe, é polida e educada, não desobedece nenhuma norma. Para descarregar suas frustrações, fere o próprio corpo repetidamente – arrancando nacos de carne dos dedos, arranhando as costas com suas longas unhas, entre outras formas de automutilação. A vontade de abrir as asas e voar e a culpa por ousar abandonar o ninho fazem a protagonista carregar um fardo insustentável.

Peso estralhaçador que deslanchará em uma série de alucinações repentinas e assustadoras  – feitas em uma computação gráfica simples, eficiente, provando que nas mãos certas esse é um recurso narrativo a mais -envolvendo o surgimento de penas, patas e asas que libertam o que o professor de Nina sempre atiçou desde que a escolheu para a peça – a mulher que a menina sempre estrangulou e manteve em cativeiro. Aronofsky, como muitos outros, descobriu o cinema como um jogo de espelhos a serem confrontados. Caso contrário, nada está em risco, caso contrário, “sem dor, sem ganho” – é só confrontando o lado feio que preferimos esconder, jogando luz sobre ele, que nossa natureza é revelada. Na luz do palco, essa experiência dolorosa e assustadora de autoconhecimento aniquilará todo o “eu” que Nina construiu até então. Toda as suas cadeias de associações cairão por terra.

Porque afinal, estamos no terreno das obsessões pelo qual Aronofsky se interessa, e a subida da dedicada artista ao palco se revelará um dos clímaxes assustadores com momentos de contração tensa e relaxo asfixiante em u ritmo cada vez mais insuportável. Para isso, o tempo-espaço cinematográfico é manipulado habilmente – o camarim branco e intocável vira uma câmara dos horrores pestilenta, escura e cheio de sangue pelos cantos; os corredores são um freakshow bizarro; o palco, por mais imenso que seja, é claustrofóbico – tudo o que vemos são planos fechadíssimos dos movimentos ora puros e perfeitos ora fatais e maliciosos da dançarina – tudo isso  para que fique claro pouco a pouco que a grande arte só é alcançada através do sacrifício. E Nina está plenamente disposta a isso.

Assim como Randy The Ram em O Lutador, a protagonista é inadequada a qualquer lugar. Onde quer que pise, estará no lugar errado. Ela não é mais uma menina, mas também não é uma mulher. É uma amálgama bizarra de puritanismo e libido em seus dois extremos. Nenhum círculo social a aceitará de volta – e só resta o balé, tudo o que ela sempre conheceu em sua infeliz existência. Mas por ela, tudo bem. Ela falhou como ser humano, mas foi a grande artista em seu meio em muito tempo. Resta o suicídio – como no final do anterior, nunca se sabe se simbólico ou real – mas definitivo, libertador e a única resposta que a sua mente atormentada pôde encontrar.

5/5

Ficha técnica: Cisne Negro (Black Swan) – EUA, 2010. Dir.: Darren Aronofsky. Elenco: Winona Ryder, Natalie Portman, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Mila Kunis, Ksenia Solo

Anúncios