– por Guilherme Bakunin

Paper Moon é baseado no romance “Addie Pray” escrito em 1971 por Joe David Brown, mas conta apenas um pequeno pedaço dessa história. No filme, a mãe da garotinha Addie Loggins morre, deixando-a aos cuidados da tia. Então um homem viajante que trabalha “espalhando o evangelho do Senhor através dos tempos” é encarregado pelos locais para levar a garotinha para a tia na cidade de St. Joseph. O homem na verdade é um golpista que, pesquisando o obituário, se aproveita dos viúvos e viúvas fazendo-os pagar a mais por uma bíblia que supostamente seria um presente pessoal que o morto encomendou antes de morrer. O homem, Moses Pray, inicialmente tem Addie como um estorvo, mas pouco a pouco aprende a conviver de um jeito mais harmonioso com ela, embora os dois passem o filme todo se desentendendo.

A beleza de Paper Moon está na relação que ele estabelece. Moses e Addie estão no meio-oeste americano no apogeu da grande depressão. Os tempos são difíceis para todo mundo, especialmente para esses dois que não possuem nem um lar para passar as noites. Mas progressivamente eles aprendem a necessitar da presença um do outro, elevando a relação impessoal de motorista-viajante/menina-órfã para algo muito poderoso e muito próximo de pai/filha. O próprio filme brinca com a idéia de Moses e Adie serem pai e filha, já que a garota é filha de prostituta, e como os moradores locais apontaram, ambos possuem o mesmo queixo. O interessante dessa brincadeira é que eles são interpretados por Ryan O’Neal e Tatum O’Neal, pai e filha na vida real.

De aventura em aventura, de esquema em esquema, tirando sempre o melhor de cada oportunidade – e que são poucas – que chegam até eles, Moses e Addie se aproximam, na medida em que afastam os outros. Ao se isolarem do resto da América em crise, os dois indivíduos são capazes de se aproximar, porque essa pequena sociedade de duas pessoas não é estabelecida em cima de parâmetros econômicos e insustentáveis, mas em necessidades sentimentais, em calor, no desespero da solidão. Quando Addie e Moses chegam em St. Joseph e ele deixa a garota na frente da casa de seus tios, Addie se dá conta que não teria naquele lar algo que ela tinha enquanto estava com Moses. Não é algo que pode ser medido ou facilmente expressado, é apenas algo que fica muito próximo do amor, da liberdade e do desapego.

O filme é moldado em uma estrutura certamente clássica, ambientado numa época real, mas sob a ótica de John Ford e o seu As Vinhas de Ira. Um filme emocionalmente tocante, singular, expressivo e belo.

5/5

Ficha Técnica: Lua de Papel (Paper Moon) – EUA, 1973. Dir: Peter Bangdanovich. Elenco: Ryan O’Neal, Tatum O’Neal, Madeline Kahn, John Hillerman, P.J. Johnson, Jessie Lee Fulton, James N. Harrell, Liz Ross, Dorothy Price.

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