por Bernardo Brum

Um dos clássicos menos lembrados  de Nicholas Ray, o gênio por trás de clássicos como Johnny Guitar e Juventude Transviada, Delírio de Loucura  é uma de suas viagens mais intensas e extremas. O diretor trata de um dos temas mais caros à sociedade ocidental cristã burguesa – a família – de uma forma dramática e dolorida.

Um filme de impacto rápido e súbito que joga com as expectativas até nos mínimos detalhes – no início quando vemos a esposa sofrer com a dúvida da vida dupla que o marido leva trabalhando como professor e taxista para poder sustentar a família, já dá uma pista do que vem por aí. Dita como uma estrutura forte e sólida, as instituições responsáveis pelo senso comum podem ruir sob o próprio peso quando surge a dúvida, a desconfiança, o desvio.

É o que acontece quando, para evitar dores excruciantes e letais, o pai de família interpretado por James Mason tem que tomar um medicamento que altera radicalmente seu comportamento – tornando-o cruel, sádico, megalomaníaco e progressivamente psicótico. Ray joga com elementos dúbios – aquilo transforma um homem íntegro e bom aos olhos da sociedade em um monstro, mas só sendo um monstro que aquele homem é capaz de viver. É um pária, sem escolha.

Tema que reinou por toda a carreira de Nick:  seus personagens são uns miseráveis destituídos de uma vida construtiva e feliz por azar, por escolhas pessoais erradas, por desespero. Não são más pessoas; seja o professor viciado aqui, seja o pistoleiro nômade em Johnny Guitar, o temperamental Bogart em No Silêncio da Noite ou o rebelde Jim Stark em Juventude Transviada, cada um tem seus motivos de ter saído da grande roda, de ter parado de rodar no mesmo sentido que os outros seguem. Mais do que por escolha pessoal, eles são anacrônicos em sua essência.

Uma casa próspera de subúrbio nunca pareceu tão sufocante; espelhos quebram, sombras crescem, corredores tornam-se apertados e longos, quartos tornam-se escuros. Ao seu bel-prazer, Ray deforma o ambiente para expressar o interior dos seus personagens. Perspicaz ao perceber nossa falta de julgamento imparcial simplesmente porque tudo tem de ser visto sob uma perspectiva, o diretor faz da mente perturbada e distorcida de seus personagens a própria misé-en-scene do filme. O sentimento de que algo está errado com a família, com o subúrbio, com a cultura WASP é terrível e presente. O modelo que a propaganda e os bons costumes priorizaram é frágil e decadente se aceito sem julgamento, por pura obediência.

Como um hábil enxadrista, o desenlance que o diretor arma ao final é cruel: morrer como homem ou viver como um ser desgraçado? Vivemos em uma cultura que preza a vida acima de tudo. Mas Nicholas Ray, no título original, fala de algo “maior que a vida”: a necessidade de ser aceito? De amar e ser amado? A honra e a integridade? Ou um simples ideal de felicidade?

Revolucionário polêmico e controverso em seu tempo que só veio a adquirir grande parte do seu reconhecimento depois, o cineasta tornou-se um notório herói underground por desafiar e questionar a moral e os bons costumes aliados a um olho clínico na hora de privilegiar a emoção acima de qualquer outro fator. E isso que seus filmes são: trágicos, ambíguos, torturantes, mas também libertadores, furiosos e, principalmente, humanos. Se era utópico fazer assim como seus personagens e desafiar a grande roda dos fatos que os tecelões costuraram antes, vá saber. Sem ligar se era possível ou não, se valeria a pena ou não, ele foi lá e deu uma bela de uma cusparada na cara de tudo que era conservador aos seus olhos.  Se realmente há algo maior que a vida, provavelmente é a verdade que todos nós buscamos. E, como Godard já disse, o cinema é a verdade 24 vezes por segundo.

5/5

Ficha técnica: Delírio de Loucura (Bigger Than Life) – EUA, 1956. Dir.: Nicholas Ray. Elenco: Walter Matthau, James Mason, Barbara Rush, Robert F. Simon,Christopher Olsen, Roland Winters

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