– por Michael Barbosa

Um filme feito para “encaixar” em um álbum de rock conceitual… Para começo de conversa acordemos que não soa exatamente fácil. Pois bem, foi esse o desafio que Allan Parker enfrentou ao comprar a ideia de Roger Waters de transformar em filme The Wall, o mais pessoal e autobiográfico dos trabalhos da lendária banda de rock progressivo, o Pink Floyd. Mas desde o conceito a coisa se torna complexa. Qual caminho seguir na missão de adaptar algo tão único? Parker opta por flertar com surreal, abdicar do cinema tradicional e tentar, assim como a obra que o inspira, ser singular.

Pink é um roqueiro e “ativista”, filho de uma mãe super protetora, órfão de pai e que criou ao seu redor um muro que o protegia do mundo real. O plot é esse, mas o desenvolvimento nada ortodoxo e um tanto confuso (não-linaridade, paralelismo e flash backs não são lá coisas simples de conciliar) mostra que a verdadeira razão de ser de Pink Floyd The Wall é o amontoado de simbolismos e metáforas que o filme é. Intercalando infância e vida adulta e com animações de Gerald Scarfe (animações sensacionais, há de se dizer) no meio disso tudo o filme dispensa diálogos e se faz expressivo através das canções, que são tocadas ao fundo e dramatizadas.

Na hora de tentar dissecar e interpretar The Wall há um grande desafio em tentar se sobrepujar para não exagerar, pois àqueles que deixarem a imaginação trabalhar é possível ver um filme de uma densidade e abrangência incrível ao desenvolver o mote. Vemos desde coisas mais claras como a crítica a superproteção materna (“Mãe, você acha que eles tentarão me castrar?/Mãe, eu devo construir o Muro?/ Mamãe irá colocar todos os medos dela em você”) até mensagens um pouco mais complexas como a crítica à generalização do sujeito e a perca da individualidade representada entre outras na já antológica cena das crianças rumando ao moedor de carne ao som do hino Another Brick In The Wall Pt. 2 e em seguida instaurando o caos, em um rápido devaneio onde os mais fracos erguer-se-iam contra o poder opressor da minoria controladora e opressora.

No decorrer da trama percorremos uma epopéia de autodestruição, a mais intimista das distopias. Assistimos a alienação como força propulsora do ódio e da intolerância, culminando em uma clara analogia ao nazismo e uma madura crítica ao culto cego do ídolo e ao totalitarismo. Ao fim Pink comete o seu maior erro ao demonstrar sentimentos e em um delírio final vemos ele ser julgado pelos seu tão fatal erro, a pena é ter o muro derrubado e finalmente ter que encarar o mundo.

Pink Floyd The Wall é a metralhadora giratória de metáforas e simbolismos que pretendia ser. Quase que como se filmado direto de um pesadelo de Roger Waters. Ácido, crítico e visceral. É doentio e belo de uma maneira extraordinária.

5/5

Ficha Técnica: Pink Floyd – The Wall (Pink Floyd The Wall) – Inglaterra, 1982. Dir: Alan Parker. Elenco: Bob Geldof, Christine Hargreaves, Eleanor David, Alex McAvoy, Bob Hoskins, Michael Ensign