por Bernardo Brum

Saem os dramas angustiados, entra a tragicomédia ácida. O importante é que Ferrara, ainda que tenha mudado de tom, acertou mais uma vez. Não se parece nem um pouco com seus densos dramas nem com seus filmes bizarros e undergrounds da época exploitation. Go Go Tales é uma terceira via que só um diretor muito seguro de si seria capaz de experimentar – e ter segurança o suficiente para triunfar na tarefa. Afinal, a boa arte é um batismo de fogo constante…

Ray Ruby, dono de um bar de go-go, é o centro de todas as confusões deste irônico porém melancólico filme. Deve dinheiro à proprietária, deve o salário das dançarinas, tem que aturar um cozinheiro rabugento e de seu irmão cabeleireiro com quem conta um financiamento para poder sobreviver na eterna selva de pedra… E  também é um viciado em apostar na loteria.

Esse personagem interpretado com uma ponta de desespero e outra de vitalidade por Willem Dafoe  é ambíguo em seu magnetismo e mediocridade paralelas. Afinal, mesmo sendo o rei do pedaço onde habita, ele está estagnado sonhando em algum dia ganhar alguma bolada e ouvindo desaforos, reclamações e protestos todas as horas do trabalho, todos os dias.

Afinal de contas, Abel não saiu do seu universo: o indivíduo comum e desconhecido e cheio de problemas e conflitos pessoais que não interessam a ninguém tendo que lidar com tentação, corrupção, desejo e necessidade.  Não há como escapar e não há como não ser mudado por esses fatores e vícios, seja em menor ou maior escala. Em uma loteria, em uma igreja, num bar de danças a go-go. Não há escapatória. O jeito é relaxar e deslizar tobogã abaixo junto.

A narrativa de Ferrara sempre pressupõe algum momento que escapa da história maior para que seus personagens protagonizem momentos anacrônicos, chamativos, sem um laço coerente que os una ao panorama geral que a história parece de início querer pretender. E Go Go Tales é completamente assim: episódico, fragmentado, improvisado, com diálogos espertos, sombras azuladas e avermelhadas e sensuais, mulheres dançando, velhas praguejando, homens brigando, uma trepada no escuro, um quase acidente que provoca risos nervosos. Um projeto estético radical de Ferrara. Se é uma “screwball comedy”, como disseram algumas criticas, por aí, digamos que é uma visão bastante pessoal.

Afinal, há uma história sendo contada por debaixo dos panos, mas os episódios sem nenhuma relação entre si que compõem um mosaico do cotidiano que é a dureza e a pindaíba manter tudo funcionando para belos exemplares do sexo feminino elevarem nossas libidos às alturas que são o interesse principal.

O filme termina fazendo graça, pasmo, boquiaberto e puto da vida, com um gosto amargo na boa. Os personagens saíram de lugar nenhum, e não estão indo para parte alguma. Um filme sem início, meio e fim determinados, que frustra as expectativas de todos os personagens e volta para o escuro, para as luzes eróticas e as moças curvilíneas, repetindo tudo isso mais uma vez, exaustivamente, sem parar. O ser humano está preso em si mesmo, na própria rotina, e não faz idéia de como sair. Restam apenas os pequenos sonhos que seriam cômicos se não fossem trágicos – exatamente a percepção de mundo de Abel Ferrara, afinal de contas.

4/5

Ficha técnica: Go Go Tales – EUA, Itália, 2007. Dir: Abel Ferrara. Elenco: Willem Dafoe, Roy Dotrice, Asia Argento, Lou Doillon, Bob Hoskins, Matthew Modine

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