– por Guilherme Bakunin

Não dá pra eu saber se o panorama que o Paul Thomas Anderson traçou aqui em Boogie Nights – Prazer Sem Limites é apurado ou não, porque não manjo de cinema pornográfico. Mas certamente é convincente. E não seria absurdo dizer que o diretor sabe do que tá falando: ele já declarou que desde pequeno teve aparelho de vídeo da sua casa (o vídeo surgiu mais ou menos nos anos setenta mesmo, mesma década em que o senhor Ernie Anderson,ator famoso de filmes de terror-b, concebeu sua criancinha-prodígio), e os pornográfos abraçaram muito mais ferozmente essa ideia do que o circuito comum do cinema americano. Mas a gente jamais vai poder diminuir o filme em História. Esse achado que o Anderson lançou em 1997 é, no final das contas, a história de algumas pessoas que se conectam nesse lance de pertencerem à mesma produtora (Colonel Inc., ou alguma coisa assim), e que é dosada de conflitos, experiências, dores e descobertas como qualquer outra, com o impacto emocional que só um diretor que aprendeu com Scorsese pode injetar.

A abertura, pra mim, dá o tom do filme: um instrumental clássico anuncia um drama trágico, mas é brutalmente interrompido por uma canção disco qualquer que irradia da danceteria onde a maioria dos personagens vão ser logo mostrados. O clássico com o kitsch (com todo cuidado que um termo perigoso desse necessita; digo kitsch apenas pra me referir ao estilo datado da era boogie) fazem a mistura de um filme que brinca constantemente com os conceitos de alta cultura (as “belas artes”, cinema incluso) e baixa cultura (video games, histórias em quadrinhos, etc), estabelecendo a pornografia como a única forma possível de expressão de todos os personagens retratados na história.

Boogie Nights é a vida de Dirk Diggler, outrora Eddie Adams que foge de casa para penetrar no universo pornô porque acredita que todas as pessoas recebem um dom especial, e o dele é ser uma ‘estrela’; para tanto, vai usar seu pênis super dotado para se tornar uma. E realmente se torna, tornando-se ídolo de todas as pessoas que o rodeiam e que passam a considerá-lo (a total oposto do que ocorria em sua casa) especial. A ascensão de Diggler e seu relacionamento com seus amigos da Colonel Productions é narrada em tom leve num primeiro momento (no que eu gosto de definir como o momento kistch, mais ou menos o mesmo kistch do parágrafo anterior), mas o suicídio de um personagem no meio da história  divide as águas de Prazer Sem Limites, trazendo o drama e a decadência dos personagens às últimas consequências (e talvez não por coincidência o suicídio aconteça no exato último segundo de 1979). O que ocorre a partir de 1980 são constantes explosões súbitas de violência ao melhor estilo moderno americano, sucessivos arcos dramáticos sendo construídos em tom sempre trágico, sugando todos os personagens para o mais absoluto fundo do poço, enquanto o mundo continua ouvindo disco e assistindo pornografia em vídeo.

O drama existencial que encharca a segunda parte do filme é violento, psicológica e fisicamente, e o baque que cada personagem sofre possui um efeito devastadoramente extasiante no espectador (falando aqui da minha experiência pessoal com o filme). Por isso, acredito, que não são poucos os que gritam que Boogie Nights é o melhor filme do Paul Thomas Anderson, enquanto os quase terapêuticos Magnólia e Embriagado de Amor também estão em jogo. Seria impossível Boogie Nights se sustentar com a comédia ao ridículo que o primeiro momento do filme propõe. Não é uma má proposta e definitivamente não é mal colocada. É simplesmente insuficiente. O sexo e as drogas do começo necessitam da violência e dos sacrifícios do final, para que ambos formem um único trabalho de peso, que tem força suficiente pra arrebatar qualquer pessoa, tramando a utilização dos mais variados artifícios cinematográficos (particularmente, Anderson usa câmeras movimentadas, muitos cortes – herança scorcesiana -, uma trilha sonora forte, atuações além do ponto e trama em formato de novela – herança de Altman) para torná-lo um excelente filme de história e de experiência.

Boogie Nights – Prazer Sem Limites é um trabalho obviamente pessoal, pois fala de um universo que Anderson, seu diretor, visitou constantemente durante sua infância, fala da chegada do vídeo no cinema, e de suas consequências baratiação dos custos e perda da “magia” do filme. Quentin Tarantino diz que é um filme em estado de excelência, Roger Ebert diz que é o melhor filme sobre o fazer do cinema desde A Noite Americana (Truffaut), e complementa dizendo que o foco é no desespero e na solidão dos personagens. É essa construção de personagens e arcos dramáticos que eu exalto. É esse domínio sobre a sua própria criação que faz Anderson ser um dos cineastas mais notáveis que eu já conheci, certamente o melhor que surgiu nessas últimas décadas.

5/5

Ficha Técnica: Boogie Nights – Prazer Sem Limites (Boogie Nights) – EUA, 1997. Dir. Paul Thomas Anderson. Elenco: Luiz Guzmán, Burt Reynolds, Julianne Moore, Rico Bueno, John C. Reilly, Nicole Ari Parker, Don Cheadle, Heather Graham, Mark Wahlberg, William H. Macy.

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