por Bernardo Brum

Primeira vez. Primeiro porre. Primeiro carro. Primeiro emprego. Primeiro fora. Todas essas nuances, que dividem homens e mulheres de garotos e garotas, devem ser enfrentados por qualquer um. A adolescência é um período constrangedor, estranho e difícil, porém ainda divertido, frenético e com cheiro constante de novidade. Não somos mais inocentes, mas ainda não estamos “machucados” e cínicos.

Infelizmente, o cinema mainstream – principalmente o norte-americano – pouco parece se interessar sobre essas milhares de camadas, esses ritos de passagem que só significam grande coisa para o indivíduo que tem de enfrentar, esse literal batismo de fogo tragicômico não tão fácil de sobreviver sem carregar traumas e marcas para a vida toda. Na maioria das vezes, o mercado inunda o público-alvo juvenil com bombas travestidas de contos de fada ou aventuras escatológicas, sexualizadas e absurdas. Mas, de vez em quando, aparece algo tipo Férias Frustradas de Verão.

Greg Mottola teve uma evolução simplesmente surpreendente de Superbad – É Hoje para esse filme. Se o primeiro, ainda que com todo o vocabulário pesado e piadas escrotas ainda conseguisse falar sobre a amizade masculina na juventude de um jeito sincero que não se costuma ver por aí, este é um retrato para lá de sensível não apenas sobre um ou dois jovens – mas sobre a maioria deles.

Não me entendam mal; ainda há as piadas bestas, porque sem elas não se vive. Momentos sem noção como o patrão de Adventureland ameaçando arruaceiros com um bastão de beisebol; o amigo idiota e sem noção que passa o filme inteiro socando os testículos do protagonista; o esforço do mesmo para se enturmar contando para qualquer um à vista que é virgem e distribuindo baseados para a turma do trabalho. Mas o viés aqui é outro; é uma obra bem mais dramática e bastante angustiada para uma comédia supostamente leve.

Claro, dá para deduzir que não é como Bergman, chegando às raias dos maiores problemas da existência; mas quem, lá pelos 15, 17, 19 anos nunca se sentiu perdido e preso? Oprimido por família, escola e relações trabalhistas; sem saber o que vai fazer ano que vem ou mesmo no final de semana que vem.

Os personagens serão protagonistas de pequenos dramas – Além de ter que juntar dinheiro em Adventureland para tocar sua vida em outra cidade para frente, James terá que enfrentar a escolha entre a garota que ele caiu de quatro, mas que tem um humor para lá de volúvel, e a gostosinha sem muita coisa na cabeça. A tal maluquinha com flutuações de humor, Em Lewin, encara a madrasta autoritária e ressentida e um relacionamento com um homem bem mais velho. Eles não correm distantes; a todo tempo os problemas se chocam e criam problemas  aonde não deveria ter e nunca estão realmente preparados para nada. Ainda são jovens, com todos os problemas do mundo para enfrentar. James e Em tem um relacionamento tão bonito quanto confuso, e assim é com cada um dos personagens exóticos que monitoram o parque de diversões Adventureland.

Música alternativa desenha a trilha sonora, não apenas sublinhando mas também fazendo parte da história. Todo esse romance complicado (e qual relacionamento na adolescência não o é?) começa com Pale Blue Eyes, do Velvet Underground. Teremos ainda Just Like Heaven e Sattelite of Love; dois hinos de ídolos anacrônicos que passam longe de compôr um filme indie como as dezenas que entram  em evidência hoje em dia.

Férias Frustradas de Verão também é alternativo, mas de forma diferente: é uma digressão da maioria do que tem sido feito em solo americano. Pouca caricatura explode em tela; os tradicionais personagens de alívio cômico jamais sobrepujam a situação complicada que vivem os protagonistas. Há um bom tempo que não víamos, daquele canto do mundo, uma tragicomédia tão sensível e segura, capaz de ser leve e pesada ao mesmo tempo. Mottola não pesa a mão na direção em momento algum, e o filme flui fácil feito água, ainda que no caminho tenha que se misturar a algumas bebidas destiladas…

É compreensível que ultimamente ande todo mundo vacinado contra as comédias americanas; é possível aceitar alguma comédia depois de Billy Wilder, Jack Lemmon e Peter Sellers terem partido e todos os novos ícones incensados do gênero estão mais preocupados em fazer filmes baseados unicamente em peidos, bundas e maconha? Difícil, mas não impossível; aquele que se aventurar pelo rio de emoções orquestrado por alguém que entende do riscado e compreende as alegrias e dramas de seu público alvo ganhará um retorno muito grande. Ainda existe uma luz no fim do túnel, se de vez em quando algo do nível deste filme for lançado no circuito e no mercado. É ver e ficar bêbado, chapado, estropiado ao lado de James, Em e Greg sabendo que lá no final esses batismos de fogo devem ter servido para algo, afinal de contas.

4/5

Ficha técnica: Férias Frustradas de Verão (Adventureland) – EUA, 2009. Dir.: Greg Mottola. Elenco: Ryan Reynolds, Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Wendie Malick, Jack Gilpin, Margarita Levieva, Bill Hader, Kristen Wiig, Kelsey Ford, Michael Zegen, Ryan McFarland, Martin Starr

Anúncios