– Guilherme Bakunin

O Woody Allen de 2010 não é o que ninguém esperava. Não é ruim, como os detratores do diretor insistem em comentar, e tão não tá perto de um Vicky Cristina Barcelona ou de um Dirigindo no Escuro. É completamente regular em todos os sentidos, diverte, é bem escrito, tem bons personagens, mas é um trabalho incompleto, preguiçoso.

O arco do personagem vivido por Josh Brolin bem que se aproxima dos áureos tempos do Woody. Um escritor que só emplacou um livro tem a chance de pôr as mãos numa intocável obra-prima de seu amigo quando este entra em coma, justamente quando pensa que sua vida está caminhando pra dias melhores – separou-se da esposa e agora vive com a exótica amante chama Dia. O problema é que esse é o final do final. Nada de errado com tudo o que passou para que Allen chegasse até aqui, o problema está naquele negócio que a gente vê no começo de Annie Hall: a vida é muito ruim, e vem em pequenas porções. É sempre bom  ter um novo filme do mais autoral dos cineastas que hollywood já teve notícia (pronto, eu disse), mas ultimamente as porções estão cada vez menores. O resto do filme é bem interessante também: Helena é uma simpática velhinha bebedora de whisky que fica emocionalmente abalada com a repentina separação, iniciada pelo marido, que se recusa a envelhecer. Naomi Watts é a esposa de Josh Brolin, que consegue um emprego de secretária do Antonio Bandeiras, e choquem-se: se apaixona por ele, ao passo que o Bandeiras também enfrenta problemas conjugais, mas ao invés de enxugar suas lágrimas no delicado ombro inglês de Watts, chega junto na gatíssima Eleanor Gecks. E Hopkins (agora ex-marido de Helena) fica noivo de uma prostituta.

Sem dúvida são pequenos recortes que já foram visitados nos outros filmes do Woody, mas tudo bem, e essa vibe soapopera é bacana, sempre dá certo com o Almodovar, e quase sempre funcionou pro Woody Allen também. E o cineasta sabe fazer cinema, sabe montar um filme, escalonar o drama, a comédia, sabe criar personagens e colocar atores para vivê-los, e pouquíssima gente por aí conseguiu atingir o que Allen atingiu em direção de atores, e não é agora, depois de 40 anos, que ele ia falhar. Não, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos não é uma grande história, mas é muito bem contada. Jogando com seus clichês, Allen transforma psicólogos em videntes, finais felizes em desastres emocionais, egoísmo em comédia (Naomi Watts explodindo com a mãe no final é uma cena a ser estudada, psicanalíticamente falando), e texto em imagens. São as trocas de olhares, o voyeurismo, os incríveis e claustrofóbicos planos-sequência, que um espectador mais desatento talvez nem perceba, que darão a fluidez pra que o filme passe tranquilo, sem grandes abalos, mas também sem grandes emoções. Fica a felicidade de continuar vendo a história de um personagem tão tocante quanto o Allen sendo feita, e a expectativa pra que, finalmente em Paris, a gente tenha mais um daqueles filmes dos anos 70 ou 80 que todo mundo adora.

3/5

Ficha técnica: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger) – EUA, 2010. Dir.: Woody Allen. Elenco: Gemma Jones, Pauline Collins, Anthony Hopkins, Naomi Watts, Josh Broling, Freida Pinto, Antonio Bandeiras, Ewen Bremner, Lucy Punch.

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