por Bernardo Brum

Não era apenas o cineasta crítico que via o mundo como uma grande horda de zumbis (Todo Mundo Quase Morto) que só resolveria seus problemas na base da porrada (Chumbo Grosso); Edgar Wright revelou-se também um contador de histórias diferente e original – e um dos mais relevantes da década que se inicia. E uma prova disso? Scott Pilgrim Contra o Mundo.

Com um filme absurdamente criativo e abertamente referencial, Edgar Wright abre um novo paradigma, ou vá lá, uma nova fissura, em termos de narrativa visual. Todas as formas novas de expressão e narrativa surgidas com a era digital – computadores, videogames e videoclipes em um filme sem a mínima adesão realista interessado apenas no que é visualmente interessante e narrativamente impactante. Claro que já haviam pensado a partir dessa proposta antes – mas isso quando o cinema era a última palavra tanto em fabulação contemporânea quanto entretenimento tecnológico popular.

Agora, com milhares de novos aparelhos disputando a tapa todos os meses, cabia a algum artista resignificar tods os novos símbolos dentro da antiga arte. Não há filme mais atual e contemporâneo que Scott Pilgrim até o momento; não tem para 500 Dias com Ela; a linguagem que alguém pressupôs ser a moderna e que pariu todos os filmes indies-de-boutique e todos os remakes de clássicos do terror ou torture-porns a toque de caixa de estética picotada foi severamente desprezada. A linguagem de Wright é apressada porque nós também somos; grande parte da juventude não atende a filmes lentos simplesmente porque nosso conceito de imagem-tempo e imagem-movimento são diferentes. Nossos dias são frenéticos mesmo quando não fazemos nada, sabemos de quinhentas notícias por segundo via computador, conversamos com dezenas de pessoas em algumas horas. Por que, então, o cinema não poderia acompanhar seu público?

E Scott Pilgrim acompanha corajosamente, sem medo de apostar num vanguardismo divertido e superficial: não é baseado em nenhuma teoria, mal teve postulação; é o modernismo (todas as tendências estilísticas e artísticas passam pela obra) encontrando uma forma de ser desenvolvida de maneira popular. Porque é o que Scott Pilgrim Contra o Mundo é, ainda que suas várias camadas de ousadia tenham naufragado na bilheteria (mas vá ver os os milhares de downloads e os torrents turbinados do filme) ; um produto de uma nova ordem, concebido por quem é desta geração para quem é desta geração. O filme tem o nosso ritmo, fala de nosso cotidiano, discute nossas idéias. É um produto artístico bastante pessoal, e ainda assim, pra lá de representativo.

A barricada entre playboys, atletas e nerds caiu; não há quem hoje não tenha jogado os últimos lançamentos dos mundos dos games, todos ouvem a nova banda sensação da semana, enfim. As tribos agora compartilham a cultura frenética em constante renovação. Não é estranho aqui caras de porte atlético com toneladas de cultura específica ou CDFs e excêntricos de marca maior enrolados duas, três ou mais garotas. Um mundo que você fica tonto se prestar atenção nos detalhes, mas que Wright agradavelmente faz questão de direcionar o seu olhar com cortes frenéticos que não deixam o filme perder o gás em momento algum. Uma narrativa própria para um mundo confuso, acelerado de forma anfetamínica, com um senso de humor negríssimo. Scott Pilgrim talvez seja o primeiro filme do século 21, se é que dá para definir o conceito.

A obra, claro, não é perfeita. Os mais chatos e conservadores dirão que o filme se perde na pirotecnia visual, sem ver que esse exagero estilístico era absolutamente necessário para tentar abrir algum novo paradigma – mais ou menos o que De Palma tentou fazer com os filmes de gênero. Wright vinha fazendo o mesmo, mas aqui ele nem de longe tenta reformular  a comédia romântica – esse filme é antes um estudo sobre as novas formas de narrativa e como as mesmas podem se aplicar ao cinema. O desenvolvimento tanto da história quanto dos personagens com isso é atropelado várias vezes; Wright visivelmente estava mais empolgado em experimentar narrativa do que aprofundar dramaturgia.

Ainda que leve a pecha de filme de mercado, é quase experimental; uma busca por uma nova maneira de se produzir um produto pop quando já se acreditava que não existia mais por onde caminhar. Eis que o melhor diretor inglês dos últimos anos surge novamente para lembrar: através das referências. Foi com elas que ele recuperou o espírito crítico dos zumbis; gozou da sociedade transformando um policial honesto em uma máquina de matar; e agora, transforma um namoro em um Street Fighter da geração internet. São os novos tempos, e quem não concordar com eles teremos já que reunir nossa guilda de vegetarianos level 93 para dar cabo disso…

4/5

Ficha técnica: Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. The World) – EUA/Reino Unido/Canadá, 2010. Dir.: Edgar Wright. Elenco: Anna Kendrick, Chris Evans, Alison Pill, Jason Schwartzman,Kieran Culkin, Mae Whitman, Mary Elizabeth Winstead, Brandon Routh,Michael Cera, Mark Webber, Aubrey Plaza, Ellen Wong

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