– Guilherme Bakunin

Era de se esperar que depois te ter lançado uma obra transgressora indicada ao Oscar de melhor filme (Cidadão Kane), Orson Welles teria carta branca para trabalhar como bem quisesse. Porém, não foi bem isso que aconteceu. Welles filmou, em 1942, Soberba, baseado no livro de Booth Tarkington. A duração original do filme seria de pouco mais de duas horas e meia, mas devido ao mau desempenho nas bilheterias, excluiu-se mais de uma hora de filme, por ordem da produtora (RKO Radio Pictures), que acreditava na recuperação do prejuizo nos primeiros dias em função deste corte. Por volta de 1942, Orson Welles estava, se liguem, no Brasil, filmando um documentário sobre nordestinos e outras coisas, o que mais tarde se tornaria o É Tudo Verdade, um pedaço de filme realmente maravilhoso e nada americano sobre a américa do sul. Por razão dessa viagem, patrocinada pela própria RKO, Welles não pôde estar presente nos cortes de Soberba. Por isso, escreveu um roteiro explicando detalhadamente como a edição deveria ser feita, mais ou menos o que ele fez com Marca da Maldade. Em 1942, Orson Welles não era o mesmo de em 1957, e portanto suas instruções não foram levadas em conta. O resultado, é um assassinato brutal a um trabalho artístico e cinematográfico.

Torna-se, portanto, inútil tecer comentários aprofundados acerca do filme, já que as intenções de primordiais de Orson Welles ficaram na sala de edição. Pode-se ver nos 86 minutos do filme hoje apenas resquícios daquilo que poderia ser um tratado sobre aristocracia e modernidade. Sem esse estudo completo, o filme tornou-se um fraco romance de absurda conveniência.

Mas não se pode deixar de notar que a megalomania de Welles é clara nesse trabalho, que foi pretensioso, já que as cenas raramente são interrompidas por cortes, o que certamente constituiu um trabalho preciso de direção, fotografia e atuação. Fontes da época garantem que Welles deu a certeza de que Soberba superaria Cidadão Kane em todos os sentidos.

Por fim, Soberba não é um bom filme, já que seus objetivos foram muito provavelmente sufocados em prol dos interesses financeiros do produtores. Merece ser visto por fãs do diretor, que tem interesse pessoal em sua difícil trajetória no meio cinematográfico.

2/5

Ficha técnica: Soberba (The Magnificent Ambersons) – EUA, 1942. Dir.: Orson Welles. Elenco: Joseph Cotten, Dolores Costello, Anne Baxter, Tim Holt, Agnes Moorehead, Ray Collings, Erskine Sanford, Orson Welles, Richard Bennett.

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