por Bernardo Brum

Muito além de um diretor de um filme de sucesso, Padilha também é um artista. E pelo que ele cada vez mais conquista mundo afora, um dos grandes dos últimos tempos . Seja em Tropa de Elite, Ônibus 174 ou Garapa, o cara confirma, com folga, porque é um dos grandes cineastas que surgiram desde a retomada. E sua nova obra mostra que grande diretor, com consciência e propriedade, e que sabe chegar ao seu público, que o cara se tornou nos últimos tempos.

O amadurecimento é notado desde o início – Tropa de Elite 2 mais é lento, contemplativo e reflexivo, mas o suspense esmagador com o qual Padilha cerca cada personagem faz com que o filme nunca perca o interesse. Pode até não ser “nitroglicerina pura”, como o anterior, mas é muito mais maduro e consciente.

A estrutura fragmentada e episódica sai para dar lugar a uma saga policial à lá Cidade de Deus e Os Bons Companheiros. Ou se ainda quiser, A Lei dos Marginais, clássico noir de Samuel Fuller, que guarda suas semelhanças com a obra, apesar da diferença dos protagonistas (um ladrão pé de chinelo e o secretário da segurança pública do Rio de Janeiro): o tal do poder paralelo manda tanto numa cidade e em um país quanto os poderes oficiais. Na verdade, ambos estão ligados de maneira indissolúvel.

Se Fuller descobria isso vendo a pirâmide do sistema “de baixo”, o tenente-coronel Nascimento vai ter que quebrar a cara e descobrir que seu tão estimado BOPE é, antes de mais nada, uma mera massa de manobra. A peça mais perigosa do xadrez mas, ainda assim, manipulável pela grande rede de interesses monstruosa que se tornou o sistema.

O tema do homem que acaba abandonando a vida cotidiana para se dedicar a um único objetivo se repete aqui, mas o roteiro pega pesado; é um assunto realmente pessoal para o tenente-coronel, círculo dramático bem mais explorado nessa seqüência, que realmente atrapalha sua vida e parece destruí-lo como indivíduo. Nascimento terá não apenas que aprender administrar vida pessoal e família com trabalho, mas também lutar contra toda uma rede de corrupção que age contra a sua vida e de seus entes queridos.

Ainda que seja um filme de gênero, Tropa de Elite 2 jamais se isola. mesmo que o diretor – diferente do que faz em seus inventivos documentários – faça uso de modismos linguístiscos contemporâneos como câmera na mão (que muitas vezes mais atrapalha do que ajuda a entender uma cena de ação), Padilha faz o dever de casa. Se não é transgressor cinematograficamente, é um filme no mínimo ousado que alcança o público com sua estética seca, rápida e frenética.

O filme evoca o melhor do cinema de guerra construído por diretores americanos contemporâneos (a grande inspiração de Tropa de Elite, afinal de contas) e muitas gruas, travellings aéreos e contra-plongées estão lá de forma que quase não víamos no nosso cinema. Sem pensar em questões nacionais, como se tal linguagem deveria ser restrita a eles e nós deveríamos procurar a nossa própria ou não, antes de mais nada é um filme realizado por quem entendeu essa linguagem e soube reconfigurá-la em um tema regional muito bem.

Através de cenas mais emblemáticas ainda que no primeiro – para ficar no exemplo mais memorável, fiquemos com o de Nascimento espancando furiosamente um político que impera na terra sem lei chamada Rio de Janeiro, furioso por tanto ter lutado por um sistema que o apunhalou pelas costas. É uma cena de emoção poderosa – destaca, como uma palavra em negrito, toda a frustração do indivíduo sufocado pelo sistema e incapaz de reagir – e poderá, assim espero, tornar-se um ícone da nossa cinematografia tão grande quanto Corisco empunhando uma faca ou Luz Vermelha se suicidando a la Pierrot Le Fou, levando o delegado Cabeção junto consigo – Tropa de Elite 2 é um filme que dá orgulho. Não só por ser conterrâneo, mas também por ser tão consciente do papel e do poder do cinema e cumprir esse dever de casa com louvor.

Os invejosos dos argentinos de não ter um grande filme feito dentros dos moldes linguísticos tradicionais (ou resumindo, cinemão) como O Segredo dos Seus Olhos, já podem comemorar: Tropa 2 é um filme desse nível. poderoso, destruidor, emocionante. Um filme tão pessimista quanto humano, tão revoltante quanto sincero. A selva de Padilha é furiosa e perigosa, mas para os que ousam entrar, as recompensas são muitas: a oportunidade de partilhar uma experiência em massa realmente rica que não temos a oportunidade de encontrar todo dia.

O tipo de obra que Costa-Gavras aplaudiria de pé.

5/5

Ficha técnica: Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro – Brasil, 2010. Dir.: José Padilha. Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Milhem Cortaz, Sandro Rocha, André Mattos, Maria Ribeiro, Tainá Müller

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