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– por Michael Barbosa

Quão sincero, amargo e depressivo um filme pode ser? É difícil saber, mas Despedida em Las Vegas muito provavelmente chega perto do limite. A história do homem que decide beber para se matar (ou se matar para beber, ele não lembra) e acaba encontrando o seu anjo em uma prostituta é de uma lisura poucas vezes vista. Um filme que consegue ser prosaico e extremamente adulto ao mesmo tempo. É um exercício de direção de atores incrível e mais do que tudo um filme livre de maneirismos, moralismo ou proselitismo que disserta de maneira única sobre o homem, o álcool e tudo que essa combinação interfere.

Ben Sanderson (Nicolas Cage) é um homem que chegou ao fim da linha. Outrora um roteirista de sucesso, casado e pai de família é agora apenas os restos do que já foi. Entregue a bebida decide pegar o que lhe resta e ir para Las Vegas beber até morrer, simples assim. E lá está ele, em Vegas, mas em uma Vegas diferente, ainda que cheia de luzes, cassinos e prostitutas não parece tão glamorosa, tem algo quebrando o clima, esse algo é Ben e sua odisséia suicida que em belo momento é interrompida por Sera (Elisabeth Shue) uma prostituta que mais do que aceitá-lo necessita daquele indivíduo beberrão e depressivo, se apóia nele e faz dele uma razão pra seguir adiante, e isso é recíproco da parte de Ben. E ali está um dos mais francos relacionamentos já vistos. Por um curto período Ben e Sera coexistem. Na mais completa relação de dependência.

Nesta caminhada onde um está rumo à morte e o outro só tentando se suportar o que vemos mais do que um mero exercício narrativo de anticlímax, é um enorme ciclo de criar e quebrar expectativas. É o sexo que nunca acontece, a ternura que nunca é possível, o aconchego que é sempre interrompido e a volta por cima que não vai chegar. E esse é o tom, com uma montagem contemplativa na maior parte do tempo e ágil em momentos específicos (como nos desabafos de Sera ao divã). Mike Figgis, que aqui extrai o melhor mais um pouco de seu elenco (o tão criticado Cage mostrando que é tudo questão de ser bem dirigido e orientado) e faz um filme assaz autoral imprimindo sua marca em tudo no filme, inclusive na trilha sonora de sua composição, jamais voltaria a fazer algo que chegasse perto do reconhecimento de Despedida em Las Vegas, ficando assim como um diretor de um filme só, uma pena. Sorte sua que não é um filme qualquer.

E quando, finalmente, depois de idas e vindas e mais e mais derrotismo, o ato se consuma é triste, derradeiro, final. Quase que como um último desejo de ambos. Não, não tem uma lição de moral. O “Anjo Sera” não foi o suficiente. As coisas foram como tinham de ser e nós fomos meros espectadores da estrada da vida e morte de duas pessoas que chegaram bem perto do fundo do poço e não pareciam fazer grande questão de sair de lá. Amoral, na mais pura acepção da palavra. Ben foi o derrotado que pintava ser e Sera a prostituta que tinha como motivação ir para casa para tirar o gosto de sêmem da boca. Eles se aceitaram mutuamente, e se realizaram com isso. Basta.

5/5

Ficha Técnica: Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas) – 1995, EUA. Dir.: Mike Figgis. Elenco: Nicolas Cage , Elisabeth Shue , Julian Sands , Richard Lewis , Steven Weber