– por Guilherme Bakunin

Uau, é difícil falar desse filme. É um dos trabalhos mais concisos do Lumet, que provou lá pelos meados dos anos setenta que é especialista nesse tipo de situação claustrofóbica em tempo real, e um dos melhores filmes do mundo, já digo o porquê: não me recordo de nenhuma experiência tão bem sucedida no que diz respeito a dicotomia entre homem e filosofia, justamente porque é um filme agradável, superficialmente leve, mas que te convida a explorar os lados mais obscuros de quem realmente somos nós.

Se você chegou até aqui, certamente já sabe que a história se passa durante todo o tempo numa sala de tribunal, onde onze jurados desejam preciptadamente levar um adolescente à cadeira elétrica. As dimensões éticas e morais são inenarráveis, mas o roteiro perpassa por cada uma delas, num estudo social meio pró-América, meio pró-democracia (é, eu sei). Como um guerreiro poeta do ano IV a.C., aquele mesmo que é narrado com façanhas sobrenaturais, Henry Fonda se levanta perante os onze carrascos negligentes e apressados, na esperança de injetar bom senso e misericórdia no julgamento de cada um deles. O que vemos a partir de então é uma jornada que vai explorar os lados mais inflexíveis dos homens, que vai medir até aonde nós, humanos, consiguimos elevar uma mentira ao patamar de uma verdade. No começo do filme, um dos jurados (se não me engano, aquele meio italiano) olha pra trás e vê o garoto  acusado de assassinato. As palavras que seguem o filme parecem nos convencer de que ele não é culpado, mas também testificam que o que os jurados estão julgando, na verdade, é se há provas conclusivas contra ele. A verdade, no final das contas, pouco importa. Mas Godard, por outro lado, diz que o cinema é a verdade em vinte e quadro frames por segundo, e Sydney Lumet parece acreditar nisso. A imagem nesta cena (perdi o fio da meada, mas ainda falo sobre quando o jurado olha pra trás e vê o garoto) parece confirmar a inocência do garoto. Óbvio que alguém que está de frente a frente com a morte temeria, mas não é disso que a imagem do garoto fala. Antes, fala sobre um sistema de segregação social, que reserva oportunidades para quem quase sempre não precisaria delas, que excluí, que incita o ódio, o preconceito, a ordem permanente das coisas, de qualquer coisa. É difícil explicar exatamente o que eu sinto, e o Henry Fonda e Jack Klugman fizeram isso melhor do que eu, mas toda a questão que Lumet coloca nessa cena é que é moralmente inadequado acusar aquela CRIANÇA de assassinato, quando na verdade o próprio sistema cuidou de arranjar as coisas daquela maneira.

Ética à parte, parece redundante falar que somente um criador de filmes (filmaker, um termo que parece não ter a mesma conotação aqui no Brasil) conseguiria arquitetar um suspense tão emocionante dentro de um mesmo ambiente, com condições estritamente reais e passado em tempo quase real. Alguns brasileiros fizeram um filme, para quem não sabe, chamado Quarta B, uma espécie de cópia (sem pejorações) de Doze Homens, transferindo o cenário para uma reunião de um colégio público de São Paulo. É um filme divertido, e até subversivo em muitas questões, mas é óbvio que como cinema, não chega a fazer jus ao filme que o inspirou. Você não consegue ligar uma cãmera e fazer Donze Homens e Uma Sentença (já deixei de falar de Quarta B aqui, que fique claro). Você precisa saber criar um filme. E Lumet soube. O filme foi indicado a três Oscars em 1958, nenhum por atuações, e não venceu nenhum deles. Redundante dizer que merecia. Ao invés disso, a academia premiou A Ponte do Rio Kwaii. A história, que supera quaisquer sistemas, tomou conta de premiar o merecedor. Rio Kwaii é interessante, mas é datado, possui apenas valor histórico. Doze Homens e Uma Sentença, se vocês me permitirem a declaração meio profética, vai sempre ser exibido em qualquer lugar que ouse discutir o direito, a justiça, a verdade, enquanto o homem existir. Um dos dez maiores pra mim.

5/5

Ficha técnica: Doze Homens e Uma Sentença (12 Angry Men) – 1957, EUA. Dir.: Sydney Lumet. Elenco: Edward Binns, Lee J. Cobb, E.G. Marshall, Jack Klugman, Martin Balsam, John Fiedler, Jack Warden, Henry Fonda, Joseph Sweeney, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber, John Savoca.

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