por Bernardo Brum

É logo no final da década de cinquenta e início da de sessenta que Mario Bava, já com tardios quarenta e seis anos debutou oficialmente no cinema após toda uma vida trabalhando como diretor de fotografia, diretor “quebra-galho” e  cenógrafo com A Máscara de Satã, filme fundamentado no que de melhor produtoras como a Hammer tinham lançado no terror gótico enraizado no expressionismo alemão e na linguagem visualmente poderosa que o diretor havia aprendido a desenvolver em tempos menos gloriosos.

O cuidado em compôr um preto e branco real, não apenas cinza, resplandece por toda a película. A típica história envolvendo bruxarias, maldições e possessão é arquitetada em uma impactante combinação de recortes de luz e sombra pouco visto até então no cinema mais comercial e de gênero.

A história da maligna princesa Asa, condenada à tortura e a fogueira da Inquisição e que volta duzentos anos mais tarde para assombrar sua descendente e os descendentes de seus executores, é fotografa de maneira assustadora, com a face das suas duas encarnações -ambas vividas por Barbara Steele – iluminada de forma dúbia e misteriosa por Bava. O evidente manqueísmo do roteiro em momento algum é um empecilho para o diretor – é mais uma premissa para ele pensar, de forma muito eficiente, como a linguagem preto-e-branca pode ser expressiva para que uma relação de opostos seja assimilada de forma ainda mais compreensível.

Indo do rosto jovial e luminoso da inocente descendente ao rosto morto-vivo da princesa bruxa, mergulhado nas luzes opacas que enchem seu rosto de expressão brutal e hostil e sem nenhuma suavidade, essa obra de um velho debutante tem uma consciência de mis-én-scene raramente vista e que o mesmo só aprimoraria com o passar dos anos com suas leituras inspiradas em folclore e  literatura fantástica e suas imagens nascidas dos estudos das obras de artes plásticas mais poderosas  e impactantes para, em acesso de pioneirismo feito pensando na resposta do público e não dos especialistas, formatou toda a estética e narrativa do terror moderno – começando pelo seu próprio país, responsável por formar, a partir de sua obra, um dos panoramas mais célebres e consagrados pelo público do cinema de gênero.

Portanto, para todos que querem entender o cinema de terror, A Máscara de Satã, assim como seus sucessores Banho de Sangue, Seis Mulheres Para o Assassino e O Ciclo do Pavor, é uma peça essencial para a sua compreensão – tendo essa categoria de terror baseado em forças sobrenaturais malditas envelhecido ou não para o grande público anestesiado com tripas, serras, ossos e cabeças decepadas, Bava continua tremendamente relevante – até hoje, a maioria só deu prosseguimento às sementes que ele lançou. A inauguração do paradigma da estética italiana única em retratar o mal começou aqui – e continua sendo copiada à exaustão até os dias de hoje.

4/5

Ficha técnica: A Máscara de Satã (La Maschera del Demonio) – 1960, Itália. Dir.: Mario Bava. Elenco: Arturo Dominici, Barbara Steele, John Richardson, Andrea Checchi, Ivo Garrani, Enrico Olivieri

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