por Bernardo Brum

À essa altura do campeonato, difícil não saber quem é Spielberg – não depois de tantos bonés, bonecos, chaveiros, camisas, estatuetas da Academia, produções, enfim a combinação ideal entre artista e indústria – e, justamente por isso, mais difícil ainda não conhecer sua marca registrada, o arqueólogo Indiana Jones. Ou Dr. Jones, se você quiser ser mais formal.

O carismático personagem, situado na época em que Spielberg queria pertencer e  de onde tirou todas as referências – a primeira metade do século, as roupas finas, as conspirações e guerra de influência entre América e Europa, as aventuras de John Huston e, obviamente, Ian Fleming, Sean Connery e a franquia 007. De tudo isso, Stevie regurgitou o mais clássico herói de entretenimento das últimas três décadas. Muitos, inclusive aqueles patrocinados pelo diretor em sua ocupação de produtor, tentaram; nenhum conseguiu cravar um clássico moderno como Os Caçadores da Arca Perdida.

Desde o início, há o trabalho febril e bem sucedido de construir um arquétipo original e funcional para a obra, que fugisse do clichê e do marasmo instituídos à época e ainda fizesse o espectador se apaixonar pela sua personalidade – ao mesmo tempo em que é um homem audacioso e intrépido, sedutor e simpático, Jones também é um herói cheio de medos (inclusive com uma hilária fobia de répteis), que sabe que só não morreu por sorte, que não luta de igual para igual e aproveita de quaisquer vantagens oportunas (como ter uma arma ou não ser visto pelo inimigo).

Um personagem que passa longe da inocência e do ideal conferindo a outros personagens da ficção popular americana, como o Super Homem (um homem sem falhas de caráter, que jamais fraqueja), e justamente aí que reside o acerto de seus autores George Lucas e Spielberg (e Harrison Ford, como não?): Indiana é um cara palpável – mesmo que suas aventuras sejam, literalmente, coisa de cinema. E se a intenção dos autores era oferecer uma margem de credibilidade realista para garantir a imensão necessária naquele tal universo onde o irreal e o impossível acontecem o tempo todo, conseguiram com êxito, incontestavelmente.

A busca de seu protagonista por relíquias cada vez mais obscuras – e, por mais frequentes que sejam os exageros, com fundo histórico também – iria se tornar, com o passar do tempo, o porto seguro de Steven. Por mais que ele tenha navegado nos mares tempestuosos e intensos do drama, filmando os massacres do Dia D, a violência sexual e o racismo, o holocausto em preto e branco e tantos outros momentos onde tornou-se elogiado por alguns e muito criticado por outros, dá para sentir que, quando arma Harrison Ford de pistola, chicote e chapéu, Spielberg está em casa.

Tal qual os melhores momentos de um Intriga Internacional, a caçada às relíquias que a sociedade moderna esqueceu é apenas um pretexto muito bem bolado para desfiar cena atrás de cena, uma mais divertida que a outra, num crescendo ininterrupto, com uma energia frenética que sustenta o filme sempre à mil por hora. Não há momentos de tédio; você estará sempre tenso, aflito, rindo e torcendo, o tempo todo. Em alguns momentos, os quatro ao mesmo tempo. Mas é um tanto redundante afirmar isso do grande filme de aventura do cinema moderno. É daqueles casos de ver e confirmar com os próprios olhos e entender o significado da velha expressão “diversão garantida ou seu dinheiro de volta”.

5/5

Ficha técnica: Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of The Lost Ark) – 1981, EUA. Dir.: Steven Spielberg. Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Alfred Molina, John Rhys-Davies,Denholm Elliott, Paul Freeman, Ronald Lacey, Wolf Kahler, Don Fellows,Anthony Higgins, William Hootkins, Vic Tablian

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