por Bernardo Brum

Assistindo filmes como esse que fica difícil de entender como Abel Ferrara não é reconhecido, pelo menos em escala bem maior, como um dos principais realizadores dos últimos anos. A história altamente estilizada sobre a dura realidade dos imigrantes nos EUA através da história de amor entre um adolescente italiano e uma garota chinesa que tem de sobreviver à intensa guerra entre as gangues étnicas que dominam os bairros pobres reaproveita parte do conceito da clássica tragédia Romeu e Julieta de William Shakespeare e mostrar que as histórias de amor impossível ainda  ocorrem. Entre Shakespeare e Ferrara, mesmo com todas as mudanças socio-culturais, ainda há a intolerância, o preconceito e o ódio.

A história simples de Ferrara, porém, não é inocente. Seu poder se dá justamente pelo minimalismo do roteiro, construindo os personagens como representações de párias entre os párias; e pela estilização do underground e da marginália à base de figurinos, trilha sonora própria à época e pelas luzes delineando as curvas dos becos escuros e montando, ao mesmo tempo, um campo de batalha entre afeto e ódio, perda e esperança e um palco onde guerreiros urbanos testam sua virilidade em lutas coreografadas como um balé violento.

Mas longe de representações que acabaram por se tornar datadas desse meio, como Warriors – Os Selvagens da Noite e seu desfile de uniformes e fantasias, a parábola de Ferrara sobre a violência que traga todas as emoções humanas e as deixa estateladas no chão em um emaranhado de sangue, vísceras e lágrimas ainda é intensa mais de vinte anos depois. Mesmo com os figurinos, interiores e músicas ainda seguindo aquela estética oitentista que já se tornou involuntariamente engraçada nos dias de hoje, Inimigos Pelo Destino é um filme muito denso e muito trágico, que com sua câmera exagerada, livre e sem floreios (inclusive com alguns dos travellings mais incríveis já vistos) enfoca, para variar, o assunto preferido de Ferrara: o nosso lado feio e condenável, que por alguma razão misteriosa é o que damos ouvidos. A pulsão de vida é sempre rejeitada com facilidade impressionante.

Esse masoquismo e atração pelo erro, vício e decadência é tratado com a propriedade que só Ferrara saberia tratar, em sua forma mais simples e talvez por isso mesmo tão poderosa: não há quem fique indiferente a esta história ao mesmo tempo tão compreensível e tão complexa, que pouco precisa de diálogos, acontecimentos ou reviravoltas para chegar nas camadas além do óbvio. Sem rodeios e com culhões de sobra, em sua primeira grande obra-prima, que precederia toda uma leva que o homem lançaria depois desconstruindo esse “lado negro” numa das filmografias mais impecáveis já vistas.

5/5

Ficha técnica: Inimigos Pelo Destino (China Girl) – EUA, 1987. Dir.: Abel Ferrara. Elenco: James Russo, David Caruso, Russell Wong, Richard Panebianco,Sari Chang, Joey Chin

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