– por Michael Barbosa

Quando em 1999 os amigos Eduardo Sánchez e Daniel Myrick juntaram um pouco mais de 20 mil dólares e com algum talento, alguma originalidade (Cannibal Holocaust, Ruggero Deodato e coisa e tal mandam oi) e um marketing bem feito transformaram, A Bruxa de Blair, uma mentirinha, em 250 milhões de dólares se abriu todo um novo horizonte ao cinema de terror no subgênero dos pseudodocumentários. Desde lá tivemos algumas coisas bem interessantes e inesperadas como o espanhol [REC], outras só toleráveis como Contatos de 4º Grau e outras não muito agradáveis como a cópia yankee de [REC], Quarentena, e o recente Atividade Paranormal. Esse ano a câmera tremida, a captação de áudio propositadamente semi-amadora, o elenco de desconhecidos e a completa ausência de efeitos visuais convincentes tiveram como pretexto o – já saturado – tema do exorcismo de uma inocente garotinha por um religioso em crise de fé. Sim, dá para chamar O Último Exorcismo de híbrido de A Bruxa de Blair com O Exorcista sem forçar muito.

Na direção o alemão Daniel Stamm que, apesar de estar em apenas seu segundo longa, tem a seu favor o fato do primeiro, A Necessary Death, ser exatamente outro mockumentary e de este ter causado relativo auê em festivais pelo mundo ao explorar temas mais originais como o suicídio e a ética no cinema. Por aqui vemos um artista dotado de plena noção de estilo mas ainda imaturo e inábil a executar bem todas as suas ideias.

O Último Exorcismo conta a história do Reverendo Cotton Marcus (Patrick Fabian) que lhe teve a pregação cristã imposta como herança familiar e que após realizar uma série de falsos exorcismos, pregar para uma platéia de fiéis que sequer prestavam atenção no que ele falava e agradecer ao médico ao invés de Deus após problemas de saúde do filho resolve através de um documentário desmascarar a farsa do diabo fazendo seu último exorcismo. O que vem em seguida é o esperado… Este maldito (ou bendito, sei lá) último exorcismo vai ter que ser “pra valer” porque Nell Sweetzer (Ashley Bell), garota de 16 anos, órfã de mãe, e criada em casa por um pai entregue ao fanatismo religioso parece realmente estar possuída pelo demônio.

O grande mérito do filme está na competente e manipulativa condução da trama, ao longo dela acreditamos fielmente que a culpa é do charlatanismo do personagem principal, do ortodoxismo do pai da garota, de um possível estupro do pai, do demônio mesmo ou que não tem nada, “é psicológico essas coisas” e fica nisso. Enquanto a história se desenrola em ritmo lento, sem criar um clima de suspense competente e se mantendo a base de sustos aqui e acolá o que dá para aproveitar é a boa montagem dentro das limitações da proposta e até certo humor jocoso (influência do Eli Roth, um dos produtores, será?) com a situação toda do fanatismo versus ceticismo.

Após um aparente final de história ainda há tempo para uma reviravolta que dá espaço para um desfecho interessante que, apesar de conectar alguns aparentes furos, ainda deixa muita coisa para livre e vaga interpretação do espectador. O Último Exorcismo diverte, entretém, faz a gente pular da poltrona meia dúzia de vezes e discutir sobre a coisa toda nos 15 minutos seguintes a sessão. Todavia, convenhamos, faz tempo que isso não é lá grande coisa.

2/5

Ficha técnica: O Último Exorcismo (The Last Exorscism) – EUA, 2010. Dir: Daniel Stamm. Elenco: Patrick Fabian, Iris Bahr, Louis Herthum.