por Bernardo Brum

Apesar de nos anos oitenta levar o que já tinha feito em Prelúdio Para Matar e Suspiria a outros níveis tão ou mais intensos quanto com as obras Tenebre e Terror na Ópera, foi nesta década, também, que o italiano Dario Argento pariu duas de suas obras mais polêmicas entre seus admiradores: Mansão do Inferno e Phenomena.

Dois dos filmes que muitos dos seus mais tolerantes admiradores já meteram o malho por Argento exagerar ainda mais no que suas obras mais fantasiosas até então tinham de sobra: a absoluta falta de coerência e lógica; o fato dos personagens que entram em cena terem tanta importância quanto uma guimba de cigarro ou pé de mesa; a mega-estilização quadro a quadro de cada seqüência.

Phenomena, filme de extremos, é quase todo assim: é belíssimo de se assistir, mas uma tarefa hercúlea  de ser acompanhado racionalmente. Não há encadeamento nem desenvolvimento. É uma narrativa feita exclusivamente para mostrar corpos sendo despedaçados, indivíduos assustados andando por corredores psicodélicos e rock do mais alto tocando – e nada de Goblin, Morricone ou Keith Emerson aqui. Argento meteu logo na trilha sonora Iron Maiden e Motörhead, duas bandas que, se não assustam, pelo menos ajudam a deixar o filme mais divertido, involuntariamente ou não – e mais badass também.

Admiradores de longa data vão perceber que aqui se repetem uma série de obsessões do europeu doidão além das mortes hipergráficas e maravilhosamente exageradas: as infâncias traumáticas, os animais (aqui, são os insetos ganhando espaço), a paranormalidade, seres bizarros, deformados e/ou etéreos. Tudo em Phenomena faz questão de abandonar qualquer parâmetro possível de de identificação com a realidade; é, antes, um mundo descortinado por Argento; muito provavelmente, uma tentativa de recriar uma impressão de Idade das Trevas aos olhos dos crédulos; maldições, lua cheia, sombras impenetráveis e o abandono de qualquer ciência ou racionalidade de qualquer tipo. Phenomena é da ordem do imaginário, do folclore e das superstições em pleno mundo moderno.

Esse terror gótico/medieval com o qual Argento consegue reconfigurar o mundo que vê é sempre único, singular, sem igual. E como é o caso aqui, nem sempre fácil de acompanhar. Muitas vezes, o filme chega ao cúmulo do sem pé nem cabeça. O ritmo é todo desconjuntado; e curiosamente aí que reside um dos grandes charmes do filme. A impressão que Dario tenha dados uns tecos ou tido alguma experiência lisérgica antes de começar a colocar o filme no papel é nítida em várias passagens; e no final das contas, a história é facilmente esquecível. Mas as imagens, ah, que imagens; entre os momentos que nada parece acontecer e que o roteiro parou, há pequenas jóias que, independentes, mostram sua força em pura catarse de imagens e sons; da trilha sonora perturbada e da fotografia que manda o dedo do meio para qualquer tipo de realismo; da maquiagem e dos efeitos especiais escabrosos (em um bom sentido) que sempre nos fazem desviar os olhos, ranger os dentes ou assistir na empolgação carne sendo rasgada, perfurada, triturada, mastigada…

Phenomena é basicamente isso: um fruto de um diretor que trabalha febrilmente em seu ofício, que solta pelos poros sequências ritualísticas de assassinato ao invés de gotas de suor.  Que transforma cães guias em feras assassinas, água em fogo, espectador em assassino; tudo para fazer você cagar na calça.

3/5

Fica técnica: Phenomena – Itália, 1985. Dir.: Dario Argento. Elenco: Jennifer Connelly, Fiore Argento, Patrick Bauchau, Donald Pleasence, Daria Nicolodi, Dalila Di Lazzaro, Federica Mastroianni

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