– por Guilherme Bakunin

No conturbado cenário do regime militar da década de sessenta, se destaca no cinema nacional esse aparentemente modesto trabalho de Julio Bressane, um dos cineastas que mais intensamente contribuiu para o cinema marginal dos anos setenta no Brasil. Essa vertente do cinema, que se utilizou da chamada estética do lixo para extrair dela uma linguagem cinematográfica latente, ativa, foi utilizada apenas aqui. Não se reconhece, na história do cinema, nenhum outro movimento que conseguiu utilizar o amadorismo como estética, como voz, ao invés de encará-lo como limitação. O movimento propôs uma ruptura radical e necessaria com o cinema novo, que procurou aplicar as chatisses vertovianas soviéticas num cenário político  infértil. O cinema marginal, por outro lado, desabrochou em terra boa e foi fertilizado pelas pequenas revoluções cotidianas, pelos gritos não tão ensurdecedores dos becos e das faculdades das principais cidades, que lançavam-se contra a ditadura, indo pela maré da libertação existencial das drogas, do sexo e do corpo nos anos sessenta.

Matou a Família e Foi ao Cinema é um mockmusical com canções que vão de Carmen Miranda à Roberto Carlos. Pode passar a impressão de ser fundamentalmente aleatório, mas há uma linearidade evidente, não cronológica ou temporal, mas narrativa, que interliga todos os acontecimentos através da violência, do assassinato, ativados pelo cenário político então vigente. Com repressão, censura, manipulação e AI-5, não é de se espantar que os sentimentos dos personagens estejamtão à flor-da-pele. A pertubação se esconde nas sombras das imagens,excercendo pressão psicológica tal que uns se viram contra outros e, constituindo interlúdio para toda essa confusão fotográfica de violência, um homem é torturado em algum lugar, como se quisessem nos lembrar o contexto à que toda a urbanidade está sujeita.

Inteligente, precário e sensacional em seu humor ácido e verdadeiro, na sua metalinguagem desconfortante, nas propostas estéticas narrativas (que vou me eximir de falar, o Bernardo ou o Luiz Carlos pode fazer isso bem melhor do que eu) e nas suas imagens cruas e vitais, Matou a família e foi ao cinema é clássico marginal repleto de ironia, revolta e violência, um dos grandes filmes protagonizados pelo nosso país.

5/5

Ficha técnica: Matou a Família e Foi ao Cinema – Brasil, 1969. Dir.: Julio Bressane. Elenco: Márcia Rodrigues, Renata Sorrah, Antero de Oliveira, Vanda Lacerda, Paulo Padilha, Rodolfo Arena.

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