– por Bernardo Brum

Ao lado de Sem Destino, M.A.S.H. e A Primeira Noite de um Homem, Perdidos na Noite foi um dos filmes que fizeram o mainstream do cinema americano “amadurecer”. As pequenas revoluções perpetradas por autores notoriamente underground e/ou assumidamente polêmicos (Ray, Fuller, Pollack, Lumet, Kazan), após serem estudadas atentamente  pela Nouvelle Vague, voltaram ao seu país de origem para imergir de vez a cabeça dos espectadores cansados de musicais e épicos que não condiziam mais com a realidade naquele universo – de adolescentes trepando no banco de trás, fumando maconha e falando palavrão; de novas religiões e filosofias desembarcando nos centro culturais do país; de comportamentos e escolhas individuais que não condiziam com o padrão WASP (branco, anglo-saxão e protestante) –  em uma perspectiva inteiramente nova.

Esse cinema revelava aos olhos cansados da Hollywood pura, intocável e careta diretores, atores e demais artistas bicho-grilo, que apresentaram uma nova lógica de se fazer cinema naquele fim de década e alcançaria seu ápice nos anos 70 com filmes como O Poderoso Chefão, A Última Sessão de Cinema e Taxi Driver. Esses novos artesãos e autores, utilizando-se de locações reais, o método de atuação Lee Strasberg e as provocações estéticas (quebras de eixo, jump cuts, esfacelamento temporal, câmera livre, planos sequência) e transgressões dramatúrgicas (ação desintegrada, ruptura de unidade, a perambulação sendo mais importante que um desencadear tradicional dos fatos) inspiradas nas inovações de Brecht e experimentadas ao nível do absurdo pelos franceses da Cahiers – especialmente Godard) configuraram todas as novas teorias cinematográficas que o fim dos anos sessenta e o início dos anos setenta transpiravam para atingir as grandes massas com doses cavalares de contracultura e “contracinema” – já que desobedecia todas as regras impostas até então pela cartilha de Hollywood.

John Schlesinger era um luminar da “new wave of british cinema”, ou “free cinema”, ramificação inglesa da nouvelle vague que instaurava na terra da rainha uma versão mais operária e social do que os provocativos e intelectuais autores franceses se acostumaram a fazer. Junto a filmes como Tudo Começou no Sábado, Odeio Essa Mulher e A Solidão de Uma Corrida Sem Fim, suas obras Darling, a que amou demais, Longe Deste Insensato Mundo e O Mundo Fabuloso de Billy Liar de uma só vez desmentiram o escrito de Truffaut que acusava o cinema inglês da Inglaterra de ser redundante e submisso e viraram os olhos da crítica mundial, pelo menos por algum tempo, para cima daqueles jovens furiosos que desafiaram o opressor sistema social inglês com uma gana tão intensa ou maior do que aquela apresentada por François Truffaut ao lançar Os Incompreendidos.

E deu certo: alguns anos depois, o diretor de maior destaque desse cinema abandonava sua terra natal por algum tempo para chegar em New York e, junto a atores atípicos para sua época que logo se tornariam estrelas do novo cinema americano, Dustin Hoffman e Jon Voight, filmar uma adaptação do dilacerante e visceral romance Midnight Cowboy, de James Leo Herlihy. Perdidos na Noite foi o resultado.

E Schlesinger fez seu dever de casa; em um lógico amadurecimento de suas obras inglesas, traça uma verdadeira obra-prima ousada, corajosa e emocionante – e jamais barata, piegas ou panfletária em sua denúncia de sociedade e costumes. O novo cinema americano que florescia aqui mostra um lado negro da América pior do que aqueles disfarçados de  pulps por Samuel Fuller em O Beijo Amargo e A Lei dos Marginais; porque aqui, é um filme sobre o fracasso do sonho americano na forma de um pesadelo grotesco. A vida não vale nada, as pessoas são sujas e burras e o ser humano se sujeita a níveis muito, muito baixos para tentar sobreviver. O indivíduo abre mão do orgulho, da higiene, do bem estar e dos idílios porque sabem que chegaram tarde demais na festa e não podem entrar no clubinho fechado dos poderosos. Ao contrário de outro imigrante, Polanski, que com seus O Bebê de Rosemary e Chinatown procurou desconstruir o americano médio, Schlesinger enfocou nada mais, nada menos, do que a marginália.

O fato de ser um filho bastardo da América, de ser um pária em sua própria pátria, é o drama de Joe Buck, a figura do caubói que, após décadas no velho oeste, tem que retornar que abandonou há tanto tempo. Logo sua esperança de ser um garoto de programa transforma-se na dura realidade: a de ser michê e ter que topar qualquer parada para não passar fome. Passar de medíocre a rejeitado o faz conhecer o lado de Nova York que ninguém quer ver  – e conhecer a encarnação e o estereótipo disso: o trambiqueiro baixinho, feioso e deformado “Ratso” Rizzo. Devido a sua herança estrangeira diferente da tradicional anglo-saxã, um eterno excluído para aquela sociedade. São essas figuras – o velho americano interiorano que não tem lugar numa sociedade que sempre se transforma para pior e o eterno estrangeiro – que, mesmo diametralmente opostas, iniciarão o tipo improvável de parceria, amizade e afetuosidade que só pode existir no desespero e na miséria.São dois homens predispostos a tudo – porque não têm mais nada a perder.

Schlesinger não teve cerimônia ao compôr cada plano de Perdidos na Noite. O clima geral é de derrota, as atuações são feitas na base da entrega, não há julgamento moralista das ações dos seus personagens. A mão do inglês não é em momento algum pesada e passa longe de mero estilo. É um filme tenso e cruel, seco e direto, onde os personagens estão condenados desde o início. Drogas, sarjeta, violência, nudez; apenas um ano depois de A Primeira Noite de um Homem extrapolar os limites da sensualidade, vieram Sem Destino e Perdidos na Noite virar tudo de cabeça pra baixo.

Sendo o primeiro filme e até agora único filme com classificação etária máxima a ganhar o prêmio máximo de cinema dos EUA, o diretor fez jus a essa reputação; o filme não inicia uma transição ou algo assim; ele catapulta o cinema de alto escalão à maturidade, para as ruas, para o sexo e a violência que a censura tanto nos afasta. Comparado a outros filmes ganhadores dos mesmos prêmios, esse clássico de caráter notoriamente underground acabou, injustamente pela sua falta de “grandeza cinematográfica” e excesso de sinceridade, em um segundo escalão. Mas quem assiste sabe que de menor não há nada no filme; esse conto de menos de duas horas é de profunda humanidade e sensibilidade, mesmo sendo implacável em seu relato. Há ternura por aqueles dois pobres derrotados no meio da desgraça. Naquele final quente, fedido e torturante, não há mais escapatória para o solitário Joe Buck. Todos vão falar com ele, ele não dará a mínima. Apenas para as lembranças e ilusões que cercavam seu pensamento ao início. É isso que Perdidos da Noite, perfeito exemplar do cinema contemporâneo propõe a ser, faz: com toda a sua simplicidade e honestidade, arrasta o espectador para dentro das vielas infinitas, cheias de melancolia, e seres humanos baixos. Basta uma assistida, e o magnetismo é certeiro; agora, você é outro cúmplice do que não deu certo.

5/5

Ficha técnica: Perdidos na Noite (Midnight Cowboy) – EUA, 1969. Dir.: John Schlesinger. Elenco: Jon Voight, M. Emmet Walsh, Sylvia Miles, Dustin Hoffman,Barnard Hughes, John McGiver, Bob Balaban, Brenda Vaccaro

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