por Bernardo Brum

Obviamente com o olhar de um estrangeiro, encarnado nas deliciosas peles de Scarlett Johansson e Rebecca Hall, Woody observa Barcelona. Suas exoticidades, contradições, ironias, risadas e lamúrias.  Com isso, observa o mundo também. O velho truque de ser universal sendo regional, usando o estranho familiar, o diferente do qual já ouvimos falar, olhando com distância pessoas  se enrolando em tragicomédias paralelas na colorida e sexualmente pulsante Barcelona.

Ma como o título não faz distinção de separar nem nenhuma das personagens, nem as mesmas da cidade, como se os três fossem indistintos entre si; o homem é fruto do meio, mas o inverso também é válido. São os personagens – as turistas Vicky, a comportada e reprimida, e Cristina, impulsiva e confusa, e os de casa, o casal divorciado Juan Antonio e Maria Elena, que compõem a fauna que transforma Barcelona em um rico mosaico que funde riso, desespero, neuroses e todo esse universo que Woody filma e refilma há quase quarenta anos – e mais uma vez, recria seu universo de forma deliciosamente refrescante – um sabor de novidade irresistível que só mesmo alguém com necessidade de reinvenção artística constante costuma conseguir parir de forma surpreendente – mesmo para quem já conhece sua obra há tempo considerável e que já poderia encarar os novos exemplares de sua extensa e duradoura filmografia com certo cinismo.

Dos mais notáveis aos menos imperceptíveis detalhes, Vicky Cristina Barcelona é um filme diferente de Woody. Mas, ao contrário do que espalharam por aí, não emula Almodóvar; dá para sentir isso assistindo o filme. As pulsões com as quais ambos os cineastas trabalham são diferentes desde a sua base. O cinema kitsch, intenso, exagerado para os dois lados (quando quer ser engraçado, é histérico; quando quer ser trágico, é um dramalhão arrasador) do espanhol quase não encontra voz no americano; o filme é o que se habitou a chamar de “comédia de costumes”.  Vicky Cristina Barcelona é um filme sobre o êxtase.  Rápido como um orgasmo, tortuoso feito um namoro, incomum como as viagens mais loucas que nós fazemos.

Só por ir na contramão do que seus antecessores (Match Point e O Sonho de Casandra) discutiam, Vicky Cristina Barcelona já foi percebido como uma obra pouco usual dentro do estilo de Woody, apesar de que, de fato, não foge ao que o americano sempre quis filmar. Saem os americanos de aparência um tanto comum para o glamour que Hollywood estão acostumados lá da louca e frenética New York – entram personagens com caráter sexual altamente explicitado. Mas também, é como reza o velho estereótipo;  o que se poderia esperar da Espanha, não é?

As inúmeras reviravoltas tornam o roteiro imprevisível – não se sabe o que esperar de personagens tão confusos, em uma cidade onde nenhuma convicção é o que parece ser, onde moças fiéis se rendem aos seus desejos libidinosos, onde garotas impulsivas e liberais podem desistir de condutas pouco usuais por simplesmente enjoar do que já virou rotina. Woody sabe disso, e não tenta elocubrar razões, justificativas ou causas lógicas para cada nova mudança de rumos. Uma das garotas cai logo vítima da cantada descarada de Juan. Maria Elena inicia Cristina na bissexualidade. Cristina, com Juan e Maria, vivem uma vida a três. Cristina enche o saco de tudo – como fez várias outras vezes. Vicky cede ao charme de Juan. Maria surta de vez. Como a Quadrilha de Drummond, ou como qualquer filme de Woody Allen, acrescido de um pouco de paella.

Mas Woody sabe que é inevitável e seu roteiro não esconde; uma hora, as férias acabam. E é hora de voltar para a terra natal. Onde tudo é tão estranho, maluco e bonito feito em Barcelona. O que a gente levou disso tudo? Mais uma das inúmeras hábeis reflexões cinematográficas sobre como o indivíduo, supostamente sofisticado e civilizado, pode ser bizarro, cômico e trágico ao mesmo tempo dentro do mundo do baixinho quatro olhos – um decalque estilizado do nosso. Um dos filmes mais inteligentemente sensuais dos últimos anos – que brinca com nossos desejos ao invés de apenas esfregar, superficialmente, nos nossos sentidos. Sexo, lágrimas, riso e neurose costurados de forma indissolúvel e indefectível. Penélope Cruz e Scarlett Johansson se beijando.

Enfim, vocês conhecem o Woody Allen.

4/5

Ficha técnica: Vicky Cristina Barcelona – EUA/Espanha, 2008. Dir.: Woody Allen. Elenco: Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Kevin Dunn, Chris Messina, Rebecca Hall, Christopher Evan Welch

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