– por Guilherme Bakunin

Existe uma pretensão maior do que contar a tragetória de Robert Crumb nesse documentário. Até porque essa história é precariamente mostrada. Em tempos onde Minha Vida já foi lançado nos quatro cantos do mundo, Crumb, de 1994 parece um filme amador em termos biográficos, no sentido de ser extremamente incompleto. Mas, como falei, existe algo que o diretor Terry Zwigoff, um modesto gênio que especializou-se em gostar de quadrinhos, tenta alcançar. Ele procura estabelecer uma relação muito mais íntima com a obra de Crumb. Algo que vai além do fato deste ser um documentário sobre o cara. Ele quer carregar seu trabalho com a mesma munição que Crumb carregou o seu. E conseguiu.

O filme começa no atelier do artista, onde Crumb está meio que numa posição fetal ouvindo um disco de blues. Depois vai para seu quarto, onde ele está falando com a mãe ao telefone. Depois para uma espécie de palestra, onde Crumb falará sobre seu trabalho. Só até aqui a gente já percebe que o filme faz muito pouco caso de ser o tal panorama  dos mais de 30 anos de trabalho do quadrinista. Estamos, aqui, em no contato mais direto que podemos ter com a própria vida do cara. Estamos presenciado, com os olhos que o cinema nos deu, quem é, de fato, Robert Crumb. E logo o pânico se instaura em nossos corpos. Descobrimos que ele é apenas o mais saudável, física e mentalmente, dos seus irmãos. Entendemos as duas origens de seu trabalho: a primeira, com os singelos desenhos de infância; a segunda, fruto de seu isolamento social e opressão paterna. O trabalho de Crumb, que essencialmente consiste numa desmascaração/desvalorização dos valores americanos, quiçá humanos, é sutilmente emulado por Zwigoff, que escancara o horror da humanidade ao se concentrar, com teimosia, em cenas com os Maxon e Charlies. São passagens desconfortáveis, assustadoras. Impressionante  mesmo é que os dois irmãos de Crumb parecem não ter a exata noção das aberrações que eles são, e vivem a vida como se suas personalidades fossem apenas um pedacinho de pênis que não interferem em nada em suas vidas.

É exatamente aí onde Zwigoff alcança o trabalho de Robert Crumb. A vida de seus irmãos é o ponto de impacto para que os dois artistas se aproximem. Vidas que são consumidas pela loucura, como as dos irmãos; a opressão dos rígidos valores sociais, com o velho pai; e a própria demência intelectual de Crumb, tristemente fotografado dizendo coisas sobre “gozar mexendo nos pés de uma garota” ou montado no lombo duma coelhinha da playboy. Sâo coisas que caem super bem em seus personagens, mas que são mostradas nesse documentário num tom sórdido de ironia, onde até os fãs sentem que as declarações e personalidades de Crumb soam, muitas vezes, deslocadas e inconvenientes (o exato oposto de absolutamente TODO o seu trabalho). E ainda existem mais bofetadas em Crumb, ao captar a tristeza na sua expressão ao lidar com a filha, ao falar da falta de apoio do pais e dos irmãos. E existe também uma imparcialidade bacana no documentário, já que críticos de Crumb também são entrevistados. Não como reacionários loucos, como é de praxe num filme sobre uma estrela de vanguarda. Mas como pessoas equilibradas e inteligentes, que cometem o ato de terem uma opinião.

Mas também, até por ser tão equilibrado o filme se aproxima do seu retratado. Robert Crumb nunca foi um homem manipulador e nunca prezou pela mentira. Retratou-se sempre  como um adolescente horroroso, um adulto autista e criou histórias e personagens que carregam dentro de si a verdade humana apreendida não pelos livros, mas pela própria experiência de vida do autor. Por isso Zwigoff é tão correto nessa ode ao seu maior ídolo. Expõe verdades  “ocultas” de Crumb como se esse fosse o seu dever artístico, muito mais acima do que seu dever como fã. No final das contas, é impossível não amar mais Crumb, não apenas porque é perfeito como artista, e isso me toca, mas também porque é imperfeito como ser humano, como todos nós.

4/5

Ficha técnica: Crumb – EUA, 1994. Dir.: Terry Zwigoff. Elenco: Robert Crumb, Dana Morgan, Trina Robbins, Spain Rodriguez, Bill Griffth, Aline Kominsky, Charles Crumb, Maxon Crumb, Robert Hughes, Martin Muller, Don Donahue, Deirdre English, Peggy Orenstein, Janis Joplin, Beatrice Crumb, Kathy Goodell.

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