por Bernardo Brum

Com uma fama de azarão já consolidada há mais de 20 anos, Terry Gilliam parece nunca ter se abalado verdadeiramente com as brigas como a com a produtora para conseguir lançar Brazil – O Filme, a problemática produção de As Aventuras do Barão de Munchausen, ou a morte do intérprete de um dos principais personagens em O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus: o que muitos veriam como um sinal de mau presságio, ou simplesmente um bom argumento para pendurar as chuteiras, Gilliam tirou nitidamente dessas adversidades uma fúria criativa que só fez as obras crescerem em qualidade.

Dr. Parnassus é um filme que, em sua esquisitice muito alegórica, pode até servir como um recorte do que aconteceu por trás das câmeras: afinal, a história inteira é envolta em temas como auto-conhecimento, arrependimento, tentação, escolhas, casualidade, traições, transgressão… E nunca em um caráter seco e direto. Um dos principais atrativos desta obra de Gilliam é a ambiguidade, o fato de nada ser delineado.

Fato que se comprova que, mesmo aparentemente começando a  andar nos trilhos de uma narrativa clássica com um visual maluco, o roteiro reserva pequenas ousadias e liberdades não previstas em nenhuma cartilha, o que não demora muito para virar a obra de cabeça para baixo – coadjuvantes são promovidos a protagonistas por um período considerável de tempo, protagonistas passam a atuar nas sombras e no fundo da tela, distorções de identidade vem à tona, com outros atores entrando no lugar do original (uma grande saída para a infeliz morte de Heath Ledger no meio da produção), o limite entre sonho, realidade e memória nunca é claro o suficiente…  Enfim, um pequeno quebra-cabeças de linguagem dramatúrgica inconstante escondido em uma história já estranha em si, que brinca com as expectativas de quem assiste o tempo todo. Cada opinião que você construir acerca de determinado personagem pode, facilmente, ir para o lixo dez minutos ou meia hora após. Gilliam não esconde isso, muito pelo contrário: essa é uma característica potencializada por suas maluquices estéticas desvairadas. Pernas de pau que alcançam o céu? Espelhos que levam para outra dimensão? Cenários que se despedaçam? Está tudo lá, freneticamente atrativo e  amedrontador.

O roteiro, típico da filmografia de Gilliam, segue caminhos tortuosos ao contar a história de homens que se entregam a tentações e lutam contra a maré, confrontando visual alucinatório algo psicodélico algo kitsch com ruas, vielas e lixões sujos; os personagens vivem em estado de miséria total em um mundo lotado de cinismo e hipocrisia onde o diabo (Tom Waits em mais uma variação de sua persona clássica – o maior filósofo de bar que o mundo já conheceu) leva a melhor tão facilmente que vez por outra até dá uma mãozinha para seus devedores conseguirem sair do mar de lama em que se encontram.

Em um mundo onde até o tinhoso tem caráter ambíguo, o que se pode esperar da humanidade? Curiosamente, uma figura divina superior nada interfere na história do filme. São as escolhas, falhas e erros humanos contra as tentações, vícios e corrupção. Aliás, o próprio Tom Waits já havia dito certa vez, “você não sabia que o diabo não existe, apenas Deus quando está bêbado?”, já denunciando que os males do mundo talvez não sejam nada mais nada menos que uma ressaca de algum delírio coletivo…

Isso constrói aqui um clima de derrota total, como em Brazil – mas também um lugar onde não se sabe o que é certo ou errado, ético ou moral, como em Medo e Delírio. Não dá para dizer que esse é um dos filmes mais otimistas de Gilliam, dado ao seu final. Nós podemos até escolher, mas bem, nós sempre vamos estar à volta com a tentação. Sabedoria para perceber a diferença? Bobagem. O Dr. Parnassus de Christopher Plummer tem séculos de experiência nas costas (dado o seu trato com o diabo, que passa o filme inteiro tentando fazê-lo pagar) pela sorte de sempre ter alguém ao seu lado. Quando não teve, pôs tudo a perder – mulher, filha, uma vida breve, irrelevante e rápida, uma pequena chama, ao invés de arrastar pelos séculos como uma figura anônima e progressivamente patética. É um mundo onde se deve e se precisa de aceitação, compreensão e solidariedade para alcançar a harmonia; ou seja, é uma utopia das maiores.

Mas Gilliam, como o próprio Dr. Parnassus, sabe que se deve dar um passo após o outro. Não há guerra vencida em apenas em uma manobra estratégica – há de se juntar as pequenas peças de quebra cabeça para poder arquitetar algum plano. Talvez a Grande Máquina seja invencível – mas a missão da arte, Gilliam já sabe desde a aurora do Monty Python,  é continuar lutando.

4/5

Ficha técnica: O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (The Imaginarium of Dr. Parnassus) – França, Canadá, Reino Unido, 2009. Dir.: Terry Gilliam. Elenco: Heath Ledger, Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Christopher Plummer, Lily Cole, Tom Waits, Verne Troyer, Andrew Garfield

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