por Felipe Silva

Quem estava familiarizado com o cinema do alemão Fatih Akin estranhou seu novo projeto já pelo trailer. O filme cheio de cores vivas e personagens caricatos, em nada parecia com os projetos anteriores do diretor, onde a dureza e a humilhação eram pontos sempre onipresentes. A surpresa fica completa quando, ao ver o filme, se descobre que Akin não erra a mão ao sair um pouco de seu terreno. Soul Kitchen é um filme divertidíssimo e que não deixa de ser um trabalho muito pessoal. Akin ficou conhecido internacionalmente com “Contra a Parede”, filme polêmico por retratar questões de xenofobia e obsessão numa Turquia que, assim como na tela, não é muito receptiva (a protagonista do filme teve que deixar o país). Depois do sucesso, fez um documentário sobre música turca, e em seguida se jogou num roteiro cheio de tramas paralelas internacionais que remetia a Babel, filme do mexicano Alejandro Gonzáles Inãrritú lançado um ano antes. “Do Outro Lado” fez relativo sucesso, mas foi uma ligeira decepção se comparado à ficção anterior.

Após alguns curtas em compilações, o diretor voltou ao longa-metragem para rever um gênero do qual ele havia apenas chegado perto em seus trabalhos, a comédia, e o resultado é bastante interessante. O filme conta a história de Zinos, imigrante grego morando na Alemanha e seu quase falido restaurante, o Soul Kitchen do título. Seu irmão, Illias é um presidiário em condicional que finge trabalhar no restaurante do irmão para poder sair durante o dia. Depois que a vigilância sanitária adverte o local por falta de limpeza, e a prefeitura da cidade vem cobrar altos impostos, Zinos decide que é hora de fechar as portas e talvez seguir sua namorada que vai para a China, mas Illias acaba trazendo amigos para o local e um boca a boca começa a surgir. E então o restaurante vira febre na cidade; todos querem participar das festas, comer os pratos incríveis do genioso chefe Shayn, e dançar ao som das bandas que tocam diariamente por ali. Zinos, que acreditava ter perdido tudo na vida, já não mais pretende largar seu restaurante, mas uma série de eventos acaba pondo o negócio em risco.

A sutileza do roteiro de Akin é sentida quando você se percebe rindo das mais esdrúxulas e improváveis situações, e mesmo apelando para clichês é impossível resistir. A atuação de Adam Bousdoukos como o abobalhado, porém sempre gentil Zinos é uma atração à parte. Com trejeitos típicos de roqueiro barrigudo filho dos anos 70, Bousdoukos também escreveu parte do roteiro, o que se percebe na fluidez de suas ações e diálogos, em especial no fato do personagem passar grande parte do filme mancando por ter lesionado a coluna, o que foi idéia do próprio ator. Moritz Bleibtreu e Birol Ünel, parceiros constante do diretor, como Illias e Shayn também são duas das figuras mais interessantes do longa, recheado de coadjuvantes discretos mas que roubam a cena na primeira oportunidade.

No geral, é bom salientar que o filme não esta livre de críticas, Akin criou situações tão improváveis, que podem incomodar o espectador mais exigente, mas a dica é deixar as críticas de lado, aproveitar a maravilhosa trilha sonora e saborear a sessão como um bom prato de qualquer que seja o seu preferido.

3/5

Ficha técnica: Soul Kitchen (Soul Kitchen) – 2009, Alemanha. Dir.: Fatih Akin. Elenco: Adam Bousdoukos, Moritz Bleibtreu, Birol Ünel, Anna Bederke, Wotan Wilke Möhring, Udo Kier, Pheline Roggan

Anúncios